As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Elis diet

Luiz Zanin Oricchio

03 Janeiro 2007 | 13h40

Amigos, a pedidos, disponibilizo no blog artigo que escrevi sobre o Especial de Elis Regina, da Globo, publicado no Caderno 2 do dia 1 de janeiro de 2007.

Globo compõe retrato ameno de Elis Regina
Programa foi comovente, mas aparou arestas da personagem

Luiz Zanin Oricchio

Para quem sentia saudades, foi muito bom o reencontro. Para quem não a conhecia, talvez o retrato tenha ficado um tanto incompleto: Elis Regina apareceu em modelo diet no especial da Globo Por Toda a Minha Vida, exibido quinta-feira. Seria mais conveniente apresentá-la de corpo inteiro, já que, além de imensa cantora, Elis foi a grande figura da música popular brasileira durante um período vital, entre os anos 60 e 70.

Foi a época mais criativa da música brasileira, e o País vivia a sua fase histórica mais tumultuada, do ponto de vista cultural como político. Elis viveu com febre e intensidade. Cantou o seu tempo e deu voz às composições de Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo,entre outros. Não eram artistas neutros, e nem Elis o era. No entanto, o relacionamento da música com o tecido social de uma terra em transe fica escondido, ou pelo menos diluído. Por exemplo, Elis é intérprete de O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. No programa, são vistas cenas dos exilados de volta ao Brasil, Betinho, Brizola e outros. Mas o que essa gente estava fazendo fora do País?, poderia se perguntar um jovem incauto.

Essa contextualização precária acaba por enfraquecer a personagem porque não se entende o fenômeno Elis apenas por ter sido uma excepcional intérprete, mas porque, cantando seu tempo, o fazia em nome de quem não podia se expressar. O programa não precisava ser panfletário. Podia apenas ser mais informativo e fazer como nas boas biografias, com o entendimento do personagem tornado possível pela compreensão do tempo em que viveu.

No mais, o especial procurou ser completo, mesclando cenas de arquivo com encenações para seguir a história de Elis da infância em Porto Alegre ao sucesso em programas como O Fino da Bossa e em festivais. Boa interpretação de Hermila Guedes, de O Céu de Suely, para a Elis madura. Muito legais também alguns depoimentos, como o de Jair Rodrigues, parceiro de Elis Regina no Fino da Bossa, ao lembrar o clima daqueles espetáculos. “O povo não saía, então a gente tinha de improvisar e começar outro show para quem tinha ficado.” Verdade: quem viveu aqueles anos sabe que se ia àqueles encontros musicais com a contrição de um devoto que vai à missa. Tinham valor cerimonial.

Já que praticamente despolitiza a personagem, o programa tinha de insistir em sua vida amorosa, nos casamentos com Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano. Elis era de temperamento difícil, como se sabe pela biografia de Regina Echeverria e também pelos historiadores da MPB. Mas também isso não aparece de modo claro. Nem mesmo sua morte é esclarecida. Especula-se que tenha morrido aos 36 anos de uma mistura de uísque e drogas, mas essa tese não é aceita, desmentida ou discutida. Passa-se em silêncio. A memória de Elis não precisava de tanta depuração. Nós a amávamos como era.