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Eleições e filmes

Luiz Zanin Oricchio

15 de outubro de 2008 | 10h07

Vou acompanhando a campanha eleitoral e os filmes da Mostra (começa na sexta, quinta para convidados), estes nas sessões para jornalistas.

Ambos – política e cinema – têm a ver com a imagem, como sabemos todos. Entre os filmes, nenhum até agora me impressionou muito. Destaco dois, que já havia visto fora do Brasil e que serão apresentados em São Paulo – O Silêncio de Lorna, dos irmãos Dardenne, e Gomorra, de Matteo Garrone. São imperdíveis, como se diz. O primeiro fala da imigração na Europa. A personagem é uma trambiqueira que faz um casamento branco para ganhar nacionalidade belga e depois quer se desfazer do marido. Mas aí é que entra a ambigüidade humana. Tem uma cena final que me deixou sem fôlego.

Também muito forte é Gomorra, adaptado do livro de Roberto Saviano que, li hoje no Estado, vive escondido porque está jurado de morte pela Camorra, a máfia napolitana. O filme mostra o fascínio dos jovens com o poder do crime organizado. Seco e cru na filmagem, é falado em dialeto e não esconde a violência. Também para não perder.

Já a política é pura imagem, e não estou dizendo qualquer novidade. Os debates não são lutas de idéias mas de imagens. Não é de hoje. Conta-se que foi um debate que decidiu a eleição americana em favor de John Kennedy contra Nixon. Kennedy aparecia sorridente, bonitão, confiante, em comparação com um Nixon suarento, desconfortável, olhando de lado. Kennedy passava mais confiança. Elegeu-se.

Aqui, os marketeiros construíram a imagem de um Kassab impoluto (não é ele o prefeito da “cidade limpa”?). Imagens claras, tom clean, ameno, tudo muito inteligente e bem-feito. Os marketeiros de Marta tentaram desconstruir a imagem do adversário, “poluí-la”, de maneira preconceituosa, e deram um tiro no pé. Ao que parece, a eleição está liquidada.

Há uma questão de fundo em tudo isso. É muito feio mexer com a intimidade do adversário, e a ética, muitas vezes, se define por aquilo que não se faz – mesmo quando se está em desvantagem. Melhor perder com dignidade do que usar de golpes baixos.

Dando isso por aceito, e ponto acima de discussões, não me lembro de indignação semelhante quando Marta teve a vida pessoal devassada, e menos ainda quando Lula foi alvo de Collor no caso Miriam Cordeiro-Lurian na eleição de 1989. Hoje tudo isso é citado para dizer que o próprio PT foi vítima do que agora pratica, etc.

Mas, na época em que os fatos aconteceram, não vi qualquer gritaria em favor de Lula ou de Marta. Por que será?

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