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Elas só pensam naquilo

Luiz Zanin Oricchio

13 de janeiro de 2008 | 18h29

A coisa mais notável, num longa-metragem (Mulheres Sexo Verdades Mentiras, de Euclydes Marinho) em que as mulheres falam de sexualidade com tanta desenvoltura, é o depoimento final dos homens. Eles, que pouco aparecem ao longo do filme, são convocados a dar suas opiniões no final. E se exprimem de forma extremamente careta e conservadora, às vezes envolta em preconceitos e num certo romantismo que não deixa de ser surpreendente: ‘O importante é encontrar um grande amor, casar’, etc. Causa um efeito de estranheza, porque os depoimentos dos homens de hoje se assemelham aos que esperaríamos de mulheres de uns 40 ou 50 anos atrás. Mulheres que viveram numa época anterior à pílula e à liberação sexual.

Talvez esse fosse um veio a ser explorado, que não seja por outro motivo pelo que quebra de expectativas. Assim, no campo da sexualidade, as mulheres estariam mais avançadas do que os homens. Mas, no fim, essa também seria uma constatação acaciana no que tem de previsível. Afinal, basta conhecer um pouquinho que seja das mulheres para saber que a cabeça delas é mesmo mais arejada que a dos homens, pelo menos para determinados assuntos. Sexo, entre eles, e com toda a sua vertente de fantasias correspondentes. Homem não fala de sexo; faz, como dizem os machões.

Só que de resto, o filme é rotineiro. Não é pelo fato de vermos como as mulheres hoje são capazes de falar com naturalidade de consolos, vibradores e outros utensílios que podemos nos convencer de uma verdadeira liberação sexual. Muito pelo contrário. Passa um certo exibicionismo de liberdade recém-conquistada, e talvez nem de todo assimilada, e isso levanta suspeitas de uma certa falta de espontaneidade das personagens.

De onde vem essa impressão? Do que dizem essas personagens? Não apenas, mas a maneira como são iluminadas e o estilo televisivo não beneficiam a recepção do filme em tela grande. Quando passar na TV talvez seja melhor avaliado, pois os defeitos crescem quando vistos numa sala de cinema e são melhor assimilados na tela pequena da televisão e com o rarefeito grau de atenção dedicado a esse ‘eletrodoméstico’, como se referia Fellini à TV. Não cabe aqui reabrir a surrada discussão entre cinema x TV, mas apenas constatar que se trata de duas mídias distintas com especificidades e linguagens próprias.

Nem mesmo o artifício de roteiro resolve os problemas de autenticidade. Júlia Lemmertz faz a cineasta que deseja rodar um filme sobre as fantasias femininas. Isso a leva a entrevistar diversas mulheres. Algumas são atrizes. Outras são anônimas. Quer dizer, o projeto de Euclydes Marinho fica a meio caminho entre a ficção e o documentário, o que, em si, não é bom nem ruim. Muito pelo contrário, pois, em arte, vale o que funciona e não o que consta nos manuais. Além disso, o cinema tem trabalhado muito bem essa cada vez mais difusa fronteira entre gêneros.

É que as costuras de ‘realidade e ficção’ em Mulheres Sexo Verdades Mentiras são aparentes em demasia e não se trata nem de questionar se isso fez parte ou não da ‘proposta’ do diretor. Simplesmente criam um artificialismo que em nada beneficia o filme, que de resto é muito simpático e não faz mal a ninguém

(Caderno 2, 12/1/08)

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