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Edward Yang: as coisas simples da vida

Luiz Zanin Oricchio

02 de julho de 2007 | 12h15

Cheguei ao jornal e recebi a notícia de que havia morrido o cineasta chinês Edward Yang, aos 59 anos. Yang é diretor de um filme de que gosto muito, As Coisas Simples da Vida. Não sei se existe em DVD. Mas, se existir, não deixem de ver.

As Coisas Simples da Vida: não deixa de ser um bom título em português, embora pareça um tanto redutor. Claro, uma das idéias mais explícitas do filme de Edward Yang é esta mesma, a recorrente sensação do homem moderno de que perdeu alguma coisa de fundamental. E que para reencontrar esse algo fundamental, e talvez reencontrar-se consigo mesmo, precisaria fazer uma verdadeira faxina mental em sua existência. Jogar fora, impiedosamente, toda a parafernália modernosa que lhe venderam como essencial e beneficiar-se da simplicidade, que é simplesmente um estado de espírito seletivo, capaz de identificar o que tem importância e concentrar-se nisso.

Esse é mais que um tema; seria um estado de espírito que faz a substância do filme e lhe dá sentido. Mas há muito mais envolvido nesse projeto que valeu ao autor o prêmio de direção em Cannes. Por exemplo, parece óbvio que o garoto Yang-Yang seja um alter ego do diretor. Não que a história que conta seja auto-biográfica. Seria, digamos, um alter ego conceitual. Yang-Yang, mais provavelmente, discute aquilo que o cinema, como arte e como instituição, significa para o diretor. Trata-se de outro patamar. O garoto, ou seja, o artista, é aquele que faz as perguntas incômodas. Do tipo: só conhecemos parte da verdade ou podemos conhecê-la por inteiro?

Não deixa de haver uma certa idealização do cinema no filme de Yang. Por exemplo, quando um dos personagens diz que, com o cinema, a vida humana multiplicou-se por três, porque multiplicaram-se as suas possibilidades de experiência. O exemplo dado pelo personagem não é dos mais felizes: não preciso me tornar um assassino para saber como é matar um homem; basta ver um filme no qual isso acontece. Não é tão simples, como se sabe, e assistir comendo pipoca ao Resgate do Soldado Ryan não equivale a participar do desembarque da Normandia. Mas, enfim, é uma aproximação possível.

De qualquer forma, o cinema, para Edward Yang, não aparece como substituto da vida, mas como enriquecedor da experiência humana, o que não é pouca coisa, e significa, nem mais nem menos, alinhá-lo entre as outras artes, como pintura, teatro, literatura – que, em tese, têm essa função de melhorar a espécie, ainda que às vezes por vias tortas.

Elevar o cinema a esse patamar ambicioso não é o menor dos méritos de Yang. Devemos ser gratos por isso.

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