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Educação

Luiz Zanin Oricchio

19 Fevereiro 2010 | 11h12

Talvez fosse melhor manter o artigo do título original, An Education, e traduzi-lo por Uma Educação. Ou ir direto a Flaubert e tomar emprestado o título Educação Sentimental. Porque é disso que se trata – da sabedoria que vem da experiência quando se chega à idade de conhecer o mundo, o amor… e a desilusão. Tudo isso acontece com a moça Jenny (Carey Mulligan) no belo filme de Lone Scherfig, baseado em roteiro de Nick Hornby (autor do comovente Febre de Bola, um dos melhores livros de futebol já escritos).

Jenny é apenas uma garota bem dotada de cabeça, que frequenta o colegial e gostaria de estudar em Oxford. Leva uma vida normal com a família de classe média em um subúrbio londrino. Tudo segue nos trilhos, até que conhece um tipo exuberante, David Goldman (Peter Sarsgaard), que lhe mostra um tipo de vida glamouroso, e desconhecido. Concertos, roupas de luxo, restaurantes caros – e Paris, símbolo máximo da “grande vie”, em especial na época em que a história se ambienta, anos 1960. Depois de Goldman, tudo parece cinzento a Jenny, inclusive seu sonho intelectual de estudar em Oxford.

OK. É um filme de amadurecimento. Como tal, pede uma história de encantamento e desencantamento, pois é com o rompimento das ilusões que uma pessoa pode se desenvolver. Assim é o processo de crescimento de Jenny, igual ao de tantos outros filmes, semelhante à de tantas outras vidas reais. Com esse tema, Scherfig poderia ter feito um trabalho maçante, quem sabe repetitivo, talvez moralista, no limite. Mas não. Por inspiração própria, talvez influenciado pelo roteiro de Hornby, ou pelo frescor de Carey Mulligan, realiza um filme solar, ainda que sóbrio – inclusive em seu sempre discreto registro fotográfico.

Há nele uma preocupação constante em humanizar os personagens, que dizer, em evitar que se transformem em caricaturas, seja do “bem” seja do “mal”. Fraquezas e virtudes parecem democraticamente distribuídas entre as pessoas, de sorte que podemos torcer por umas ou antipatizar com outras, mas sempre reconhecendo nelas a capacidade de nos surpreender com seus atos.

Essa recusa em traçar perfis chapados dá certa espessura a esse filme de alcance modesto. Scherfig não quis construir uma tragédia, nem mesmo um drama. Apenas quis apresentar um difícil rito de passagem da adolescência para a idade adulta. Jenny é uma mocinha iludida dos anos 60. Simpatizamos com ela, mesmo quando se deslumbra pelas luzes e festas. Não a abandonamos quando precisa rever valores e redefinir sua trajetória. Suas decisões não parecem uma grande vitória, nem tem o sabor de consolo diante de uma derrota. Ela é apenas uma pessoa diante da vida, aprendendo com suas imposições e seu rigor. Simples assim. E a beleza vem dessa simplicidade.

(Caderno 2, 19/2/10)