Ecos do Katrina
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Ecos do Katrina

Luiz Zanin Oricchio

26 de agosto de 2010 | 16h52

Kawana1

Land of Opportunitiy (Terra da Oportunidade) é uma divisa do mito americano. Evoca o lugar onde todos podem progredir. Não deixa de ser verdade. Também não deixa de ser mentira. Nem todos enriquecem e a nação imensa contém enormes contradições sociais dentro de si. Num sentido vagamente irônico, essa divisa serve de título ao documentário de Luisa Dantas sobre a reconstrução da cidade de New Orleans, devastada em 2005 pelo furacão Katrina.

Nascida em Nova York, filha de pais brasileiros, Luisa mantém um pé em cada país. Está, portanto, em excelente condição para compreender o que Spike Lee já constatara em seu seminal When the Leeves Broke: a única superpotência do mundo, a maior economia do planeta, o sonho de consumo de migrantes de todas as partes, abriga, em seu território, zonas de pobreza dignas de um país do Terceiro Mundo.

Para documentar o rescaldo da catástrofe, Luisa mudou-se para New Orleans em 2006 e acompanhou as pessoas durante quatro anos e meio, “com a ideia de mostrar sob o ponto de vista de personagens de origens diferentes, os dramáticos altos e baixos de um processo de reconstrução urbana em grande escala”, diz. Com esse projeto na cabeça, sua câmera na mão captou nada menos de 1.500 horas de material, que lhe deram muito trabalho para serem montadas nos 95 minutos do filme. “Para cada história ótima, cinco tão boas quanto ficaram de fora”. Estão perdidas? Não. Muito desse material será divulgado ao longo do ano pelo site http://landofopportunitymovie.com. “Foi tudo, desde o começo, pensado como projeto multiplataforma”, diz Luisa. Na plataforma filme, Land of Opportunity será exibido dia 27 de agosto, dois dias antes do quinto aniversário do Katrina, na França e na Alemanha pelo Canal Arte.

Não existe ainda previsão de estreia no Brasil ou nos Estados Unidos, o que acontecerá de forma inevitável, pois o filme interessa aos dois países. Para os americanos, por motivos óbvios, e, para o Brasil, além questão básica da universalidade da solidariedade humana, porque, em seu percurso por New Orleans, Luisa encontrou vários patrícios. Por acaso. “Estava entrevistando mexicanos quando escutei um grupo falando português. Foi uma surpresa descobrir que muitos brasileiros faziam parte dessa mão de obra maciça que estava reconstruindo a cidade”.

A cineasta considera que seu filme complementa muito bem o novo documentário que Spike Lee fez sobre o Katrina e que se chama If God is Willing and da Creek Don’t Rise. Ela cedeu a Spike algumas imagens. “São de uma reunião crucial entre o conselho municipal e moradores de casas que o governo queria demolir”.  Luisa entende que Lee propõe uma visão macro, de conjunto, ao passo que ela apresenta uma experiência mais íntima, com os personagens. A associação com Spike Lee deu frutos: “Por causa do material que nós cedemos, ele se interessou pelo projeto e vai produzir o nosso conteúdo para o site”.

Após a tragédia, New Orleans tornou-se um laboratório exposto da sociedade americana: “o filme apresenta um microcosmo de um país dividido por raças e classes sociais”, diz Luisa, para quem o cinema não apenas pode como deve interferir na realidade social. E, sim, ela quer fazer mais um filme nos EUA, Desire Street, baseado no livro de Jed Horne. E, depois, voltar para o Brasil.

Spike Lee volta ao tema

Em 2006, um ano depois de o furacão Katrina ter destruído a cidade de New Orleans, Spike Lee apresentou um filme de grande duração e impacto, When the Leeves Broke: a Requiem in Four Acts (Quando os Diques Cederam – um Réquiem em Quatro Atos).

Ao longo de 255 minutos, Lee, por meio de entrevistas, imagens cruas e tom indignado tece de maneira implacável sua principal tese: não foi a fúria dos elementos a principal causa das mortes e sim o racismo e o descaso das autoridades em relação aos mais pobres.

Ele recorda, por exemplo, que as previsões da meteorologia eram de um furacão de força máxima e nenhuma medida preventiva foi tomada. A parte da população que não tinha como fugir por conta própria foi ficando para trás e transformou-se no mais importante contingente de vítimas. Mostra também que o socorro tardou a chegar e veio de maneira insuficiente, com poucos víveres e medicamentos. Lee mostra cadáveres boiando na água e outras cenas que, tiradas do contexto, poderiam ter sido registradas na África ou em algum país do Terceiro Mundo.

O filme passou em Veneza e foi o grande premiado na seção Horizontes, a mais importante mostra paralela do festival italiano. Na ocasião, Lee comentou a leitura social que fizera da tragédia, acusando o então presidente Bush de descaso: “Ele não mostrou qualquer interesse pela parte desfavorecida da população, fosse ela branca ou negra.”

O governo mudou, agora é Barack Obama quem está no poder e Lee volta ao tema com novo documentário, também de quatro horas de duração, chamado If God Is Willing and da Creek Don’t Rise.

Desta vez, compara os efeitos devastadores do Katrina aos do terremoto no Haiti e, perto do final, mostra outra desgraça que se abateu sobre New Orleans com o vazamento de óleo da British Petroleum no Golfo do México.

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