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Ecos da revolução sexual

Luiz Zanin Oricchio

22 de maio de 2011 | 14h25

Os ecos da revolução sexual dos anos 60 e 70 continuam a se fazer ouvir. Até mesmo no mercado editorial. Além de A Viúva Grávida, acerto de contas ficcional de Martin Amis com aquela época, foi lançado em português O Paradoxo Amoroso (Bertrand Brasil), do francês Pascal Bruckner (mesmo autor do romance Lua de Fel, filmado por Polanski).

É normal que assim seja. Trata-se de uma fase da história recente que não deixa ninguém indiferente. Provavelmente porque a nossa época ainda tem tudo a ver com aquela, apesar do meio século passado e tanta coisa acontecida entre um tempo e outro. Tanta coisa, que iria desmentir e até certo ponto desfazer algumas das conquistas daquela revolução dos costumes.

De fato, quem imaginaria, naqueles anos rebeldes, que a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética terminaria de maneira tão rápida e com a vitória contundente de um dos lados? Fim das utopias, falência do mundo bipolar. Por outro lado, quem imaginaria que a liberação dos corpos, que tanto trabalho custara a mais de uma geração, seria brecada pela chegada de um vírus misterioso e mortal, que vinha não se sabia de onde? Esses desdobramentos são interessantes, em especial para aqueles que julgam saber de antemão em que direção a História se move.

Bruckner defende a tese de que a nossa geração é filha de maio de 1968. No entanto, não vivemos a utopia feliz imaginada por quem participou dos movimentos libertários daquele tempo. Podemos ser livres para amar, porém nunca fomos tão solitários e infelizes no amor como agora. Como se a liberdade trouxesse consigo outra forma de tirania: o imperativo do gozo. Com suas decorrências: a fantasia da eterna juventude, a pressão pelo desempenho, o ideal do prazer infinito. Imperativos condenados ao fracasso porque o tempo é implacável, a performance sexual não é uma forma de atletismo e o desejo humano parece intermitente. Quanto mais livres nos julgamos, mais presos de fato estamos, e a outras instâncias que não controlamos.

Por outro lado, o surgimento da aids não apenas colocou um travo à utopia da sexualidade ilimitada como deu lugar ao aparecimento de um neomoralismo que ninguém julgava possível àquela altura do campeonato. Quem não se lembra das insinuações, explícitas ou muito mal disfarçadas, de que a doença seria uma espécie de castigo dos deuses (ou pior, da natureza) à promiscuidade? A revolução sexual, que parecia triunfante e absoluta nas décadas anteriores, sofreu um refluxo. Mas não recuou a um ponto anterior a si mesma, porque isso não acontece na História. Ajustou-se. De modo que o nosso tempo parece forjado por uma revolução abortada pela metade, cujos efeitos não foram neutralizados, mas reduzidos.

Daí o paradoxo da convivência entre comportamentos sexuais que parecem mais livres do que nos anos 60 e um moralismo social arraigado, raivoso e assumido. Em nosso tempo redescobrimos uma realidade talvez invisível durante os exaltados e hormonais anos 60: a liberdade tem mesmo seu preço. Alto, altíssimo às vezes, mas que vale a pena ser pago.

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