É Tudo Verdade: um monumento à História do Brasil
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É Tudo Verdade: um monumento à História do Brasil

Luiz Zanin Oricchio

16 de abril de 2016 | 12h03

Getúlio acompanha a escultura do próprio busto

Getúlio acompanha a escultura do próprio busto

 

Assisti ontem a Imagens do Estado Novo 1937-1945, de Eduardo Escorel. Quase quatro horas de documentário, com imagens de arquivo, narrado pela voz profunda e pausada do próprio diretor. Digo, desde já, que se trata de filme incontornável sobre o período. Não apenas pela (estupenda) pesquisa de materiais, como pelo arranjo de imagens e comentários sobre a quebradiça linha histórica que conduz da revolução de 1930 à democratização de 1945.Trata-se, nada menos, que da matriz profunda do Brasil de hoje, vivendo em ebulição por conta de contradições históricas acumuladas ao longo de sua trajetória republicana.

Para quem ainda duvida que a história brasileira seja feita por acordos (ou cisões) de “elites”, com o povo conduzido como massa de manobra, o documentário pode ser muito instrutivo.

Acompanhamos o tortuoso caminho de Vargas, um talentoso equilibrista político, mestre em golpes e que termina vítima de um deles. Ou dois, se prolongarmos um pouco o escopo do documentário e acompanharmos Vargas, redivivo pela via democrática em 1950 e levado ao suicídio pelos golpistas de 1954. Esse desfecho trágico aparece numa pequena coda do filme.

Mas Escorel concentra-se mesmo nos 15 anos de ditadura Vargas (1930-1945). O ditador rasga a constituição que previa eleições para 1938 e, com malícia de enxadrista, mantém-se no poder. Com uma série de medidas impulsiona o Brasil moderno e industrial. Promulga leis que defendem o trabalhador, como a CLT e o salário mínimo. Ao mesmo tempo, governa com mão de ferro. Prende, tortura, censura, fecha jornais. Durante a 2ª Guerra, mantém-se neutro, oscilante entre a Alemanha e os Estados Unidos, até ser obrigado a se decidir pelos Aliados. Manda o Brasil à guerra, e obtém o financiamento americano para o complexo siderúrgico de Volta Redonda. Não havia dinheiro do Estado para erguê-lo e os industriais brasileiros não estavam dispostos a investir no longo prazo (quem investe a longo prazo neste país?).

Com todas as suas contradições, os anos Vargas talvez sejam os decisivos para a construção do Brasil contemporâneo. Através das imagens – e da narração – Escorel instala-se nas contradições desse processo. Imagens oficiais (a maioria), outras anônimas, música, uma narração que às vezes se choca contra o que está sendo mostrado – tudo isso produz uma imersão do espectador no período varguista. E, talvez mais do que isso, mergulho nessa tortuosa construção da nacionalidade, ainda não terminada, longe disso, na qual cada um rema para o seu lado. Enquanto o povo, este sim, em geral fica a ver navios.

Nesse sentido talvez a cena mais significativa, entre tantas outras, seja o grande comício de aclamação marcado no Estádio do Pacaembu para a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes. Metade das arquibancadas estava lotada. Pela “elite”, formada por apoiadores, políticos, industriais, estudantes, dondocas da sociedade paulistana, a classe média bem vestida. A outra metade, reservada ao povo, continuava vazia. O povo não veio. Em meio ao gritante vazio da arquibancada popular, um gaiato escolheu um lugar e sentou-se. Era o único popular presente no que seria a consagração da candidatura de Eduardo Gomes para substituir Getúlio. O general Eurico Gaspar Dutra acabou levando.

O rigor histórico proposto por Escorel não permite tirar ilações fáceis para o Brasil de hoje. Mas, de certa forma, é impossível não fazê-lo. Afinal, a História demora para se pronunciar (quando o faz) e não admite compartimentos. E se com alguma certeza saímos desse longo, brilhante e indispensável filme, é que a tradição democrática brasileira revela-se apenas retórica. As classes dominantes, e a própria classe política, não acreditam na democracia. Esta ainda é uma construção recente em nosso imaginário nacional. E encontra-se sempre sob ameaça. Em especial por aqueles que não tiram a palavra democracia da boca. Perguntem a Temer ou Cunha se eles não se acham democratas exemplares. 

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