É Tudo Verdade – Galeria F e Chicago Boys, a política, a ditadura e o Deus Mercado
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

É Tudo Verdade – Galeria F e Chicago Boys, a política, a ditadura e o Deus Mercado

Luiz Zanin Oricchio

11 de abril de 2016 | 09h42

theodomiro

 

Um domingo político no É Tudo Verdade. À noite, vi Galeria F, de Emilia Silveira e, em seguida, Chicago Boys, dos chilenos Carola Fuentes e Rafael Valdeavellano. Dois títulos que, cada qual à sua maneira e com variações de tema, evocam o tempo das ditaduras militares em seus países.

Theodomiro Romeiro dos Santos, membro do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) reagiu à prisão e matou um policial. Foi o primeiro brasileiro condenado à morte no regime militar. Depois, teve a pena comutada. Após cumprir nove anos de prisão, escapou e, por fim anistiado, retomou vida normal. Hoje é Juiz do Trabalho. O documentário de Emilia Silveira leva Theodomiro a refazer sua trajetória de fuga, numa espécie de road movie político. “É a história de um homem comum, que viveu uma vida incomum”, diz a diretora.

Depois da fuga, acreditava-se que Theodomiro estivesse já no exterior. Um furo de reportagem do Estadão, escrito por Emiliano José, ele próprio ex-preso político, revelou que Theodomiro continuava no Brasil.

Galeria F (era o espaço em que ficava sua cela na Penitenciária Lemos de Brito), na Bahia, ao acompanhar essas peripécias, relembra um tempo em que se vivia sob a violência ditatorial no Brasil. Quer dizer, evoca para quem era vivo na época. E informa aos mais jovens, que não viveram tempo semelhante e, talvez, nem sonhem que coisas desse tipo puderam existir. Emilia já havia feito o ótimo “70”, sobre os presos trocados no sequestro do embaixador da Suíça. Mergulha de novo nos anos de trevas, sem esquecer o toque humano e, por incrível que pareça, o humor presente nas situações mais trágicas. A história da fuga de Theodomiro não deixa de ser hilária, com o secretário de segurança da Bahia, no governo de Antonio Carlos Magalhães, assistindo a um jogo na Fonte Nova, enquanto o preso se evadia sob suas barbas.

Chicago Boys é um denso e analítico documentário, do tipo que é feito em países latino-americanos, mas, por algum motivo, não no Brasil. Fala do grupo de jovens economistas que foram estudar na Universidade de Chicago e voltaram imbuídos do ideário neoliberal de Milton Friedman. Com o golpe militar, apresentaram um plano econômico ultra-liberal, que passou a ser aplicado ao país. São entrevistados Rolf Lüders e Sergio de Castro, ministros de Pinochet, Ernesto Fontaine, colaborador do regime, Carlos Massad, ex-presidente do Banco Central. Como contraponto, Ricardo Ffrench-Davis, crítico das ideias neoliberais adotadas no Chile e suas consequências sociais.

Detalhista, e aproveitando-se apenas dos depoimentos dos personagens, sem voz off, o doc evoca os tempos de estudantes em Chicago. Depois, a volta do grupo ao Chile, quando passa a lecionar na Universidade Católica de Santiago, epicentro da doutrina do mercado como entidade absoluta da economia. Por fim, o trabalho acelerado num plano econômico enquanto o governo de Salvador Allende era derrubado por um golpe civil-militar apoiado pela CIA. Um desses economistas diz que subiu a uma colina da cidade para apreciar o Palácio de La Moneda sendo bombardeado pelos golpistas. “Um espetáculo lindo”, diz. Enfim, a escrita, a toque de caixa, do documento volumoso – apelidado de El Ladrillo (o tijolo), nova bíblia da economia a ser seguida pelo regime.

O Chile foi uma espécie de laboratório das ideias neoliberais, que apenas depois seriam adotadas no Primeiro Mundo por Reagan e Thatcher. Estado mínimo, liberdade dos mercados, fragilização dos movimentos sociais e dos direitos trabalhistas – todo esse receituário que se conhece e que toma a economia como um valor em si. A população serve à economia ao invés desta servi-la.

Chicago Boys toca na gênese dessa curiosa doutrina do Deus Mercado, dominante nos dias de hoje. Como admite um dos golden boys da nova ordem apenas sob uma ditadura seria possível implantar esse tipo de plano no Chile. Mas, claro, os ministros que serviram sob Pinochet garantem que nada sabiam do se passava no país. Tortura, mortes, desaparecidos: nada disso era com eles. Ocupavam-se apenas de taxas de inflação e curvas de desenvolvimento.

Chicago Boys é um filme obrigatório para quem deseja entender o que se passou no Chile e nos outros países. Este é o nosso mundo.

 

Tendências: