É Tudo Verdade: a volta da política
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É Tudo Verdade: a volta da política

Luiz Zanin Oricchio

01 Abril 2011 | 10h09

Qual a relação de um filme com a realidade? A pergunta está sempre presente – em geral de maneira implícita – a cada vez que imagens em movimento são projetadas sobre uma tela. E a questão se torna mais urgente, em particular, se essa obra se intitula um “documentário”. Queremos sempre saber se, em que medida, essas imagens dizem a “verdade” sobre o “real”. Por isso, de certa forma, o tema estará em discussão ao longo deste que é o mais importante festival de documentários do País, o É Tudo Verdade, criado e dirigido pelo jornalista Amir Labaki, e que começa hoje.

O festival, em sua 16ª edição, tem seu título inspirado no filme incompleto realizado por Orson Welles no Brasil, começa hoje com a exibição de The Black Power Mixtape, de Göran Hugo Olsson, sobre o movimento ativista negro nos Estados Unidos, no final da década de 1960, começo dos 70. Início estupendo, sem dúvida, mas apenas um aperitivo para o cardápio completo, que terá um total de 92 documentários vindos de 29 países diferentes. Entre eles, 18 brasileiros inéditos, prova de que o gênero se encontra em grande fase no País.

Como não se perder em meio à maratona? Amir acha que é melhor não opinar e nem eleger favoritos: “Todos esses títulos selecionados representam apenas 5% dos que se inscreveram; é um universo muito amplo, de modo que dar dicas seria um pouco como fazer a escolha de Sofia”.

Para quem não se lembra do filme A Escolha de Sofia, de Alan Pakula, nele, a personagem de Meryl Streep se vê obrigada a escolher entre dois filhos queridos, para salvar um e sacrificar o outro. Um dilema terrível, como o que acomete o diretor de um festival quando é convidado a optar entre títulos que selecionou para o evento.

Se o diretor, compreensivelmente, prefere não citar títulos favoritos, não se nega a discutir uma espécie de linha geral que passa entre que vai ser apresentado neste ano: “A novíssima safra me parece marcada por esta ênfase em captar sob a ótica privada as principais questões públicas, como o movimento pela democratização no Irã (A Onda Verde) e o fortalecimento do engajamento religioso (Posição entre as Estrelas), para ficar em apenas dois exemplos. É como se houvesse agora uma síntese dialética entre a tendência intimista que era marcante na década de 1990 e a retomada social e política que se seguiu ao 11 de setembro.”

Quer dizer: os cineastas voltaram a ter consciência de que não adianta as pessoas não se interessarem pela política, porque a política sempre se interessa por elas. Não é pouca coisa.

No ritmo trepidante da História

Angela Davis, Stokeley Carmichael, Malcolm X e Martin Luther King – os expoentes da luta dos negros norte-americanos pelos direitos civis estão presentes no filme de Göran Hugo Olsson, que abre o imenso painel documental proposto pelo – É Tudo Verdade de 2011.

Com imagens marcantes em preto e branco e um ritmo trepidante de apresentação, The Black Power Mixtape traz à memória o calor político dos anos 60 e 70, quando todas as soluções pareciam ao alcance de mãos que, muitas vezes, escolhiam a via da violência para alcançá-las. É interessante notar justamente a oposição entre o pacifismo de Martin Luther King e as propostas de luta armada de outras facções, como a dos Panteras Negras. É um filme que tem como seu grande mérito nos transportar para o clima de época, o que é sempre o desafio maior tanto do documentário como da ficção.

Essa sensação de captar os momentos em que a História parece fazer-se diante dos olhos do espectador se repete em diversos filmes desta mostra. Com a sucessão de revoltas no mundo árabe, ganham grande atualidade filmes como A Onda Verde, A Queda de um Xá e uma Odisseia Iraniana. Se o Irã de Amadinejad não deixa de causar preocupações no Ocidente, talvez esse conjunto de filmes traga um pouco de racionalidade à nossa percepção sobre o país. Neles temos, na sequência, o governo nacionalista de Mossadegh, a ascensão e a queda de do xá Rehza Pahlevi e as eleições presidenciais de 2009 – esta captada em depoimentos de personagens, mas também em postagens em blogs, no Twitter e no Facebook. Um grande arco histórico que coloca o país ora em sintonia ora em dissonância com os países dominantes, em especial com os Estados Unidos. Na contraluz, o fato inescapável de ser o Irã uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o que, no fundo, explica tantas intervenções e tanta preocupação do Ocidente.

Igualmente tenso e participante é o trabalho da russa Marina Goldovskaya, que ganha retrospectiva e é uma das convidadas do evento. Em seus filmes, Marina acompanha de perto o esfacelamento do império soviético e o nascimento de uma nova ordem, com Boris Ieltsin, o que não se dá sem grandes turbulências. Em seu O Gosto Amargo da Liberdade, Marina traça um retrato tanto intimista quanto político de sua amiga, a jornalista Anna Politkovskaya, assassinada em 2006. Na época, Putin declarou que o crime seria solucionado e os culpados punidos, apesar de Anna ser notória inimiga do regime. Até hoje o assassinato não foi esclarecido. O documentário vale-se de filmagens e material de arquivo, registrando um país em permanente ebulição. Anna pagou caro ao denunciar as violações de direitos humanos cometidos por seu país na guerra da Chechênia.

“Na obra de Marina, o público vai encontrar um documentarismo quente, que registra o impacto sobre as pessoas comuns dos grandes movimentos da História (o fim da URSS, os primeiros passos da nova Rússia, de Ieltsin, Putin e Medvedev). Trata-se da primeira retrospectiva internacional mais ampla da obra de Marina, celebrando seu 70º aniversário.”, diz Amir Labaki. O Gosto Amargo da Liberdade terá sua estreia mundial no É Tudo Verdade.

Como de certa forma o País passou ao largo das grandes turbulências mundiais, o documentário brasileiro oferece um panorama diverso. “É um momento de renovação no Brasil, estilística, geracional e temática. A hegemonia da tradição dos grandes temas histórico-culturais e das grandes personalidades não é mais tão marcante. A permeabilidade maior às outras artes, não como tema, mas como estratégias de linguagem, se apresenta com nova força também na produção nacional”, explica Labaki.

Daí a presença de um filme como Assim É se Lhe Parece, em que Carla Gallo esmiuça o universo estético do polêmico artista plástico Nelson Leirner. Ou Aterro do Flamengo, em que Alessandra Bergamaschi monta sua câmera fixa na observação de um terrível fato do cotidiano e na reação das pessoas diante dele.

Circunstâncias políticas e históricas entram um tanto de viés num filme como Dois Tempos, em que Dorrit Harazim e Arthur Fontes revisitam a família do bairro da Brasilândia cujo cotidiano haviam registrado dez anos antes. É testemunho da ascensão do que se convencionou chamar de “nova classe média”, um fenômeno econômico dos anos Lula. E contingências histórico-sociais entram de maneira mais clara no tocante Vocacional, uma Experiência Humana, em que Toni Venturi relembra seu tempo de aluno em um dos Colégios Vocacionais, experiência pedagógica libertária liquidada pela ditadura.

Se no âmbito dos brasileiros a temperatura parece um tanto morna, ela deve ferver no debate de lançamento dos DVDs de dois documentários de Newton Cannito, Jesus no Mundo Maravilha e Violência S.A. (este em parceria com Eduardo Benaim e Jorge Saad). A começar pelo título da mesa – A Verdade É uma Farsa (dia 5/4, às 19h30, na Livraria Cultura do Shopping Villa Lobos) – da qual participam o diretor, o pesquisador Jean-Claude Bernardet e o apresentador Marcelo Tas.

A ideia dos documentários é apresentar assuntos dolorosos (no caso a violência urbana) sob o formato humorístico. Os filmes fascinaram estudiosos como Bernardet, mas também causaram repulsa em outras pessoas. Ao propor o tratamento paródico de uma situação que envolve ex-policiais adeptos da pena de morte, um palhaço e uma mãe que teve seu filho morto pela polícia, o documentarista expõe-se a opiniões controvertidas. Como a do cineasta Eduardo Escorel, que classifica a posição do cineasta, neste caso, como de “abuso de poder”. E a de Bernardet, que considera o filme Jesus no Mundo Maravilha inovador ao introduzir a ironia no domínio do documental e aceitar que vivemos de modo inescapável na sociedade do espetáculo.

São discussões polêmicas, que envolvem a ética do documentarista em relação aos seus personagens e prometem muito calor ao debate – e, com sorte, alguma luz também.