É Tudo Verdade 2021: Eu e o Líder da Seita
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É Tudo Verdade 2021: Eu e o Líder da Seita

Luiz Zanin Oricchio

09 de abril de 2021 | 12h02

Pelo menos dois bons programas hoje no É Tudo Verdade – O Líder da Seita e Glória à Rainha, ambos na competição internacional de longas. 

Eu o Líder da Seita evoca o atentado com gás sarin praticado pela seita apocalíptica Aum Shinrikyo no metrô de Tóquio, em 1995, quando 13 pessoas foram mortas e 6 mil feridas. Atsushi Sakahara foi uma dessas vítimas e, mais de 20 anos depois, ainda carrega sequelas em seu sistema neurológico. Ele mesmo resolve confrontar a seita e, depois de um ano de negociações, consegue encontrar-se com Araki, atual dirigente da Aum. 

O filme tem alguns aspectos impressionantes. O maior deles, a maneira como Sakahara se relaciona com Araki, afinal de contas representante de uma seita de fanáticos que o prejudicou pessoalmente. Usa do humor, da empatia e de certa ironia ao tentar extrair de Araki pelo menos uma admissão de culpa e um pedido de desculpas. O problema é que o representante da Aum é liso como peixe ensaboado. Usa as palavras não para esclarecer fatos e motivações, mas para escondê-los atrás de uma cortina de fumaça verbal. Esse torneio é por vezes interessante e, outras, exasperante. 

Um dos pontos altos do filme é o encontro da dupla com o pai e a mãe de Sakahara. O pai, particularmente, é muito mais direto e incisivo que o filho na inquisição a Araki. Nem por isso obtém melhores resultados.

Para além da tragédia do fanatismo em si, o filme aponta para um aspecto difícil de admitir. Só existe diálogo quando duas (ou mais) pessoas se dispõem a ele. Quando encontram alguns pontos comuns de acordo e mostram-se dispostas a ouvir as razões do outro. Fora disso, as palavras servem mais para ocultar do que para revelar. No entanto, e esse é um dos paradoxos da linguagem, dessas negações sistemáticas surgem pontos de fissura capazes de esclarecer um observador mais atento. Guardadas as devidas proporções, conhecemos muito bem esta realidade no Brasil atual.

Bastante interessante, também, é Glória à Rainha, de Tatia Skhirtladze, uma produção da Áustria, Geórgia e Sérvia. Apresenta a história de quatro mulheres enxadristas que fizeram sucesso num mundo predominantemente masculino. Nona Gaprindashvili, Nana Alexandria, Maia Chiburdanidze e Nana Ioseliani, todas georgianas, botaram o mundo enxadrístico de cabeça para baixo com sua inteligência e talento. Isso num tempo de Guerra Fria, em que o esporte era considerado prioridade na antiga União Soviética como maneira de afirmar a superioridade socialista diante do capitalismo. Belo filme, que surge num momento de interesse pelo xadrez feminino despertado pela série da Netflix Gambito de Rainha.  

 

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