É Tudo Verdade 2020
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É Tudo Verdade 2020

Luiz Zanin Oricchio

29 de setembro de 2020 | 14h29

‘A Cordilheira dos Sonhos’, de Patrício Guzmán

Absorvido pela cobertura do Festival de Gramado, estou tendo de correr para pegar pé no É Tudo Verdade 2020. Aliás, daqui até o final do ano haverá uma pororoca infernal de festivais, mostras e lives, encavalando-se de maneira desordenada para desafio de qualquer maratonista cinéfilo, por mais fôlego que tenha. Mesmo meio atrasado (e, contra meus hábitos, estressado), já assisti a vários documentários interessantes ou muito bons no É Tudo Verdade (ETV) deste ano, em versão online. 

A começar pelo sempre fundamental diretor chileno Patrício Guzmán, que fecha sua trilogia sobre o golpe militar em seu país com A Cordilheira dos Sonhos. Sequência de Nostalgia da Luz e O Botão de Pérola,  tem a mesma qualidade e impacto dos anteriores. No primeiro a paisagem era o deserto de Atacama, no segundo, o oceano e, agora, a majestosa Cordilheira dos Andes, que atravessa o país. A melancólica narrativa do próprio Guzmán, as metáforas recorrentes sobre a eternidade da natureza e a história implacável (e efêmera) dos homens juntam-se de maneira inspirada na temática necessariamente obsessiva do diretor: o golpe militar que derrubou Salvador Allende em 1973, instaurou uma república de assassinos e abriu caminho para o neoliberalismo dominante no país. O filme é brilhante. 

Forman vs Forman faz o percurso da trajetória – de vida e de arte – de Milos Forman, com cenas de filmes e comentários do próprio cineasta. De sua fase na Tchecoslováquia natal até a mudança para os Estados Unidos, onde se consagra com O Estranho no Ninho e Amadeus. Um filme muito legal para que aprecia o trabalho do diretor. 

O argentino 1982 ,de Lucas Gallo, marca o ano da Guerra das Malvinas, em que a Argentina tenta recuperar as ilhas dominadas pela Grã-Bretanha. A guerra desperta uma onda nacionalista e, perdida, precipita o fim do regime militar. A originalidade do filme é ver todo o processo através de imagens de um programa popular,  60 Minutos, da TV argentina. No auge do empuxo nacionalista, o 60 Minutos promoveu uma transmissão ininterrupta de 24 horas, maratona destinada a arrecadar fundos para a guerra. O apelo ao nacionalismo diante de um inimigo externo é recurso recorrente de ditadores. Neste caso, para usar uma imagem armada, saiu pela culatra. 

Filmfarsi ,de Ehsari Khoshbakht, e Golpe 53 , de Taghi Amirani, formam um bom dueto sobre o Irã. Um, exumando uma indústria cinematográfica que floresceu no país em tempos passados. Outro, lembrando o golpe – patrocinado pela CIA e pelo M16 – que derrubou o governo progressista de Mohammed Mossadegh e reconduziu ao poder o Xá Reza Pahlevi, dócil aliado ocidental. Na pauta, claro, o interesse despertado pelo petróleo, o chamado “ouro negro”. Um bom programa para todos, mas em especial para quem pensa que intervenções estrangeiras em governos democráticos é papo de “esquerdopatas”. Filme político e investigativo da melhor qualidade. 

O Rolo Proibido mostra a tentativa de salvar o acervo de filmes da empresa cinematográfica afegã, ameaçado quando os talibãs tomaram o poder em Cabul. O salvamento dos negativos – escondidos por gente diligente e corajosa – segue o fio da trágica história do Afeganistão, país devastado por ocupações e guerras civis. 

Brasileiros

Entre os nacionais, o destaque é para Meu Querido Supermercado, de Tali Yankelevich, que faz da loja um microcosmo dos mais interessantes. Com funcionários falando do trabalho e de suas vidas pessoais (inclusive com especulações religiosas e metafísicas), montagem certeira e trilha sonora levemente irônica, Supermercado traz histórias ótimas. O tom, às vezes distanciado, jamais é cruel com os personagens. Pelo contrário – sentimo-nos em sintonia com eles e solidários com seus sonhos e temores. 

Atravessa a Vida é mais um filme de João Jardim sobre o ambiente escolar. Desta vez – ao invés da panorâmica de Para O Dia Nascer Feliz – ele se concentra numa única turma de um único colégio no interior de Sergipe. Muito bons personagens, empatia e tom avesso a estereótipos. 

Uma certa melancolia desprende-se de Utopia/Distopia, de Jorge Bodanzky. Ele parte da utopia da criação da Universidade de Brasília para a distopia de sua invasão após o golpe militar e a liquidação do projeto imaginado por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. Expressa o mesmo banzo que sentimos hoje em dia com o processo de canibalização do país. Aconteceu lá atrás e volta a acontecer hoje. Há um tempo em que o país tem projeto para o futuro e há o tempo de autofagia, em que tudo se destrói. Na época da ditadura de 1964, houve como uma detonação violenta, um tiro de canhão. Agora, uma asfixia  progressiva e cruel, como um garrote vil. O horizonte é sempre o mesmo: a morte. 

A Ponte de Bambu, de Marcelo Machado, é um simpático documentário sobre um jornalista que foi trabalhar na China e lá permaneceu por muitos anos. Suas filhas nasceram lá e mantêm laços afetivos e profissionais com o país. Aprende-se muita coisa com esta visão sem preconceitos sobre a China, país que passou ser demonizado pelos Estados Unidos e, por extensão, por seus subalternos no Brasil. 

Não Nasci para Deixar meus Olhos Perderem Tempo, de Cláudio Moraes, põe o foco sobre a trajetória do fotógrafo-jornalista Orlando Brito. Autor de imagens famosas, tanto de políticos como de gente do povo, Orlando é também um excelente contador de histórias, qualidade de que se vale o filme para manter o interesse do espectador. 

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