É Tudo Verdade 2018: a radicalidade de Neville D’Almeida, os bastidores de um clássico e os garis da internet
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É Tudo Verdade 2018: a radicalidade de Neville D’Almeida, os bastidores de um clássico e os garis da internet

Três ótimas atrações hoje no festival: A Batalha de Argel, um Filme na História (15h, no Centro Cultural São Paulo), The Cleaners (também no CCSP, às 19h) e Neville D’Almeida, Cronista da Beleza e do Caos, às 19h e 21h15 no Instituto Moreira Salles.

Luiz Zanin Oricchio

17 Abril 2018 | 11h33

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Hoje o dia está quente no É Tudo Verdade com, pelo menos, três ótimas atrações: A Batalha de Argel, um Filme na História (15h, no Centro Cultural São Paulo), The Cleaners (também no CCSP, às 19h) e Neville D’Almeida, Cronista da Beleza e do Caos, às 19h e 21h15 no Instituto Moreira Salles.

Em A Batalha de Argel, Malek Bensmail, refaz os bastidores da obra de Gillo Pontecorvo, considerada um dos mais influentes filmes políticos de todos os tempos.

A própria filmagem de Batalha de Argel foi uma história e tanto. Partiu do livro escrito na cadeia por um dos guerrilheiros da Frente Nacional de Libertação (FNL), Saadi Yacef, texto depois revisto e roteirizado por Franco Solinas e dirigido por Pontecorvo. A população de Argel participou ativamente das filmagens e o filme era considerado obra de afirmação nacional. Bensmail esmiúça aspectos pouco conhecidos como a escolha de atores e o perigo que a obra correu quando o presidente Ahmed Ben Bella foi deposto na sequência de um golpe de Estado. A filmagem foi um épico quase tão conturbado quanto a revolução que descreve.

The Cleaners, de Hans Block e Moritz Riesewieck, mostra um dos trabalhos mais insalubres do mundo, o dos moderadores de posts do Facebook. As pessoas são contratadas para averiguar vídeos e outros tipos de postagem. Imagens de pedofilia e incitação ao terrorismo são sumariamente deletados. Mas e outros? Como mover-se na zona cinzenta que separa o intolerável da simples censura?

E como recompensar o trabalho dessas pessoas submetidas no dia a a dia a doses cavalares de imagens pornográficas e de violência? O filme mostra uma realidade das redes sociais na qual pouco pensamos quando as utilizamos diariamente. E, claro, fica a impressão de que, mesmo retirando muitas imagens indigestas e eticamente indefensáveis, esses “cleaners” (limpadores) no fundo estão enxugando gelo. Para cada imagem apagada, quantas mais equivalentes são postadas?

Em 2014, o crítico carioca Mario Abbade assinou a curadoria da mostra Neville D’Almeida – Cronista da Beleza e do Caos. Esse também é o título do documentário que Abbade fez com o cineasta. Digo “com” porque a parceria é evidente. O próprio Neville vai narrando sua trajetória, expondo suas ideias, seus combates, seus desafetos (não poucos) ao longo do filme.

Outras vozes se juntam, as de pessoas que trabalharam com ele, como Maria Gladys, Denise Dumont e Joel Barcellos, a colegas cineastas, como Cacá Diegues, críticos como Luiz Carlos Merten e André Parente. E, sim, são vistas cenas de filmes mais antigos como Jardim de Guerra e Mangue Bangue, seus grandes sucessos em adaptação de obras de Nelson Rodrigues como A Dama do Lotação e Os Sete Gatinhos. Do grande escândalo que foi Rio Babilônia a trabalhos como Navalha na Carne e o recente A Frente Fria que a Chuva Traz, livre adaptação de um texto de Mario Bortoloto.

Neville é um provocador e performer. Vem do tempo do cinema que outros chamaram de “marginal” e conseguiu grande sucesso com seus Nelson Rodrigues na era Embrafilme. Dama do Lotação foi até recentemente o terceiro filme brasileiro mais visto de todos os tempos. É controverso. Ao paroxismo de Nelson, Neville ajunta um exagero todo seu. O resultado, para muitos, chega à overdose. Mas o fato é que fez sucesso naquela época.

No final da ditadura lançou o polêmico Rio Babilônia, que mostrava cenas de sexo explícito (ou não?) numa sequência de piscina. Denise Dumont e Joel Barcellos dizem que não houve sexo, outros juram que sim e a impressão do espectador é de que se trata de sexo para valer. Mas que importa? O filme, em si, trouxe uma enorme discussão sobre a violência urbana e sobre a falta de perspectivas de uma parte da sociedade brasileira.

O doc é bastante inclusivo. Traz o Neville das artes plásticas em sua colaboração com Hélio Oiticica (as videoinstalações Cosmococas), o cineasta e o polemista que, na contracorrente, parece ter aberto um caminho muito particular, apenas seu. Recusa os rótulos de “marginal” ou “maldito”, e todos os outros entrevistados parecem respeitá-lo pela coragem. O doc tem ritmo e se deixa ver com interesse.

Faltam vozes dissonantes. No entanto, Mario Abbade diz que muitos se recusaram a falar num filme dedicado a Neville D’Almeida. Pode ser. Isso é tipicamente brasileiro: se não podemos falar bem, não falamos. Ou falamos mal, mas pelas costas. Irônico, nas cenas finais, Neville diz que a recusa de certas pessoas contribuiu para a qualidade do filme. Esse é Neville D’Almeida.