As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

E se o nome dele fosse Robiño?

Luiz Zanin Oricchio

04 de julho de 2007 | 08h06

Uma emissora de televisão deu 30 segundos a João Saldanha para explicar por que o Brasil havia vencido a Iugoslávia. João nem precisou desse tempo todo: ‘O Brasil ganhou porque Zico se chama Zico. Se chamasse Zicovic, a Iugoslávia teria vencido.’ No domingo, o Brasil ganhou porque Robinho se chama Robinho. Caso se chamasse Robiño, o Chile teria vencido. O craque disse sua palavra. A definitiva.

Longe de mim menosprezar a análise tática do futebol, prática que se tornou popular entre técnicos, comentaristas e boleiros de botequim. Influenciados, possivelmente, pela importância que a Europa atribui ao assunto, o que temos é uma falação numérica infindável: 4-4-2, 3-5-2, 4-3-2-1 e sei lá mais o quê. Uma amiga, escutando um papo desses, espantou-se: mas o que é isso, futebol ou número de celular? Todo esse falatório tecnocrático desfaz-se diante de dois dribles e uma pedalada. Como o ‘futebol científico’ da União Soviética derreteu sob Garrincha e Pelé em 1958.

Por coincidência, outro dia ouvi o mesmo Zicovic, aliás, o Zico, dando entrevista, agora na condição de técnico do Fenerbahçe. Lembrando sua época de craque, Zico disse que, quando jogava, nunca ouvira falar em esquema tático e outros bichos. E olhe que ele foi treinado, entre outros, por Telê Santana, cujo nome hoje ninguém ousa pronunciar sem antepor o qualificativo de ‘mestre’.

O fato é que, até Robinho decidir o jogo, encontrando seu espaço pela direita (o craque sempre encontra seu espaço, costuma dizer Pelé), o Brasil de Dunga patinava no jogo, mesmo ganhando por 1 a 0. Foi por lá que ele recebeu ótimo passe de Vágner Love e fez o segundo, de cavadinha, na saída do goleiro. E foi por lá que driblou dois adversários em velocidade e finalizou de pé esquerdo. Um golaço. Por que estes lances aconteceram? Porque Robinho esqueceu o que os Capello da vida lhe enfiaram na cabeça e jogou o futebol aprendido nas praias de São Vicente, no Portuários, na base do Santos. Voltou a ser Robinho.

É em busca de momentos assim que a torcida vai ao campo, ou liga a TV para ver um jogo. Momentos de magia, de inesperada beleza, ou senão de luta, de tensão, de entrega, de drama. Uma partida é um teatro, com a diferença de que a peça não está dada de antemão, por mais que os ‘professores’ queiram prever tudo. O texto do jogo vai sendo escrito à medida em que a bola rola e os atores se vêem obrigados a improvisar, embora ensaiem muito antes de entrar em cena.

Dessa beleza, o brasileiro anda bem carente. Daí a badalação em torno de um jogador como Dodô, do qual se convencionou dizer que ‘não sabe fazer gol feio’. E é isso mesmo. Dodô tem a técnica, a arte. A gente sabe quando um jogador a tem pela simples maneira como toca na bola. Até o som produzido pelo encontro da chuteira com ela é diferente. E Dodô vai fazendo seus gols, sempre com classe. A beleza está associada à elegância dos movimentos, como no balé e outras artes cênicas.

Daí a justificada valorização desse jogador que passou por grandes clubes, como São Paulo e Santos, sem encantar ou fazer história. Beneficiado pela boa fase do Botafogo, Dodô vai consolidando a imagem de esteta da bola. Quantos como ele existem no Brasil? Dá para contar nos dedos de uma só mão, se tanto. Por isso não é preciso pensar muito para descobrir por que os estádios estão vazios.

Sem o craque, meus amigos, não há solução.

(Coluna Boleiros, Estadão, Caderno de Esportes, 3/7/07)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.