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E o tal do mundo não se acabou

Luiz Zanin Oricchio

01 de fevereiro de 2014 | 11h27

Você talvez conheça aquele samba do Assis Valente, cantado pela Carmem Miranda: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar…” Se conhece, sabe como prossegue, com a protagonista se dando ao luxo de fazer e dizer tudo que lhe vêm à cabeça. Afinal, não haveria dia de amanhã para as contas começarem a chegar. Mais ou menos por esse caminho vai o colombiano Mauricio Cuervo em Crônica do Fim do Mundo, no qual a premissa seria o fim do universo de acordo com o calendário maia. Não passaríamos de 2012, e muita gente acreditou na previsão, inclusive os personagens deste filme.

O principal deles é o aposentado Pablo Bernal, um senhor de 70 anos que, convicto do apocalipse iminente, resolve colocar suas contas em ordem. Quer dizer, passa o dia ao telefone, dizendo aos desafetos todas as verdades que deveria ter falado ao longo da vida, mas que, por motivos óbvios, não disse. Há uma certa graça nesse ajuste de contas, em especial porque o ator Victor Hugo Morant é muito bom. Seus monólogos ao telefone são mesmo engraçados, apesar da rispidez inerente ao excesso de verdade que, como se sabe, não cabe no diálogo e no convívio humano.

Pablo mora sozinho e é cuidado pelo filho, Filipe, sendo que este é casado e acaba de ganhar um filho. Sua mulher exige que Filipe seja mais presente em casa e não empregue tanto tempo em cuidar do pai às voltas com seus desafetos. Mas há uma intercorrência que o fará aproximar-se do pai. Num dos telefonemas, Pablo descobre que inimigo morreu. Depois de cobri-lo de insultos, fica sabendo que quem atendeu do outro lado da linha foi o filho do morto, que jura vingar a memória do pai. E parece disposto a cumprir a ameaça.

Com esse estratagema narrativo, Crônica do Fim do Mundo deixa seu tom cômico e inclina-se para o drama. Ficamos sabendo mais sobre Pablo que, longe de ser apenas um velhote ranzinza, possui um passado dos mais problemáticos. Aprendemos, numa cena muito tensa em que ele fala ao filho Filipe, o que lhe aconteceu há 20 anos e por que motivo evita sair à rua. De fato, Pablo vive como um quase recluso desde que perdeu a esposa e tornou-se viúvo. A revelação vem nessa conversa. E, através dela, abre-se uma janela de compreensão não somente para o homem, mas para a sociedade colombiana.

Não se pode dizer que Crônica do Fim do Mundo seja aquilo que chamamos de “grande cinema”. Não se encontra nele aquele tipo de apuro formal, ou de invenção de linguagem, e nem mesmo a intensidade sólida que caracterizam os grandes filmes. Seus pontos fortes são a atuação do protagonista, que dá verossimilhança ao personagem de Pablo, e a maneira original de contar uma história ocultando-lhe os motivos e mesmo o tom narrativo. Começa como uma comédia que depois se nega e converte-se em drama para terminar com o ar esperançoso de quem se comprometeu a mostrar um raio de esperança ao seu público. Sem ser genial, deixa-se ver e, para dizer a verdade, apresenta mais surpresas do que muito filme badalado que anda por aí. Sem contar que é rara a oportunidade de ver alguma coisa do cinema colombiano no nosso circuito. É bom aproveitar.

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