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É inacreditável

Luiz Zanin Oricchio

04 de setembro de 2012 | 07h30

Veneza. Amigos, aqui da Europa acompanho como posso o futebol brasileiro. Vendo as notícias e assistindo a um ou outro jogo pela internet. Antigamente (quer dizer, uns 15 ou 20 anos atrás), quem estava no exterior ficava por fora do Brasil. A imprensa europeia pouca bola nos dava, só abrindo exceção quando acontecia alguma catástrofe. A comunicação com o país era por carta ou telefone. A primeira lenta e não muito frequente na nossa tradição de pouca escrita. O telefone, impraticável por causa do preço. Estávamos isolados. Vivendo na França, fiquei sabendo da morte de Elis Regina meses depois, e isso porque minha irmã me fez o favor de avisar, por carta.

Pensando nisso, outro dia me lembrei de um personagem do Jô Soares. Aquele do último exilado brasileiro que, quando lhe contavam o que acontecia por aqui, invariavelmente perguntava, com ar choroso: ” Vocês não querem que eu volte?” Tão absurdas lhe pareciam as notícias nacionais que soavam como piadas de mau gosto. Melhor continuar no exílio, apesar das saudades.

Tive vontade de me queixar como o exilado do Jô quando soube, pela internet, que a seleção brasileira vai de novo jogar amistosos e desfalcar os clubes de seus jogadores. Assim, vai esvaziar um clássico que poderia ser vibrante, um Santos x São Paulo que será disputado sem os principais nomes dos dois times. É inacreditável! Depois de sangrar os clubes por um tempão durante a Olimpíada, mal acabam os jogos de Londres e já começam esses malfadados amistosos. Ok. São datas FIFA, mas será que não poderia haver uma certa compreensão? Será que jogadores como Neymar e Lucas ainda precisam ser testados? Precisam? Então tudo bem: que as rodadas do Campeonato Brasileiro sejam suspensas para evitar prejuízo aos clubes e torcidas. Até quando os clubes vão aceitar esse tipo de coisa passivamente?

Ou pior: até quando vão se acumpliciar com a CBF? A entidade parece bem segura de que não tem nada a temer dos clubes. Estes teriam, no fundo, todo interesse em que seus jogadores sejam convocados, pois a vitrine da seleção os expõe e valoriza no mercado internacional da bola. Por isso mesmo, outro dia, José Maria Marin cantou de galo: ” Se algum clube não quiser mais ter seus jogadores convocados, que me mande um pedido por escrito, que sou até capaz de atender”. É mole?

Mas o que me intriga mesmo não é a falta de piedade da CBF com os clubes. Ou a cumplicidade mal disfarçada dos clubes que possuem jogadores selecionáveis com a CBF. Afinal, ninguém tem dó de ninguém e todos buscam seus interesses imediatos, sem pensar no médio e muito menos no longo prazo.

O que me intriga é o descuido da CBF com o campeonato que ela própria organiza. Aquela que deveria ser a sua principal atração, seu cartão de visitas, é atirado às urtigas, tratado como torneio de várzea chinfrim, ao invés de ser valorizado e vendido a todo o mundo. Como fazem os europeus, que de bobos não têm nada.

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