‘E de Repente o Amanhecer’ vence o Festival Latino Americano 2018
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‘E de Repente o Amanhecer’ vence o Festival Latino Americano 2018

Filme do chileno Silvio Caiozzi ganha o festival falando das memórias de um velho escritor que volta à sua terra, na Patagônia

Luiz Zanin Oricchio

02 Agosto 2018 | 20h11

Foi pela votação do público que o oceânico ‘E de Repente o Amanhecer’, do chileno Silvio Caiozzi, ganhou o prêmio principal no 13º Festival de Cinema Latino Americano de São Paulo. Foi uma belíssima escolha.

E tão bela como surpreendente, levando em conta as dificuldades propostas pelo filme. A começar pela duração de três horas e 15 minutos. Mas é uma história que precisa de tempo para se realizar – justamente porque se propõe como meditação sobre o próprio tempo.

Um velho jornalista (Julio Jung) volta à sua terra natal, na Patagônia. Por que faz a viagem? Ele próprio terá de descobrir. Talvez por nostalgia. Talvez para rever amigos. Ou ainda em busca de fonte de inspiração para escrever algo mais sério – ele que ganhou a vida dedicando-se a futilidades vendáveis nos jornais.

De modo que o protagonista, Pancho, apelidado pelos amigos de Pingüim, será confrontado com seu passado e consigo mesmo. A narrativa se apoia em dois eixos. No “presente”, em que os fatos vão acontecendo na cidadezinha que recebe seu filho pródigo. E, no “passado”, na memória de Pingüim, que evoca os momentos tão maravilhosos como dolorosos da juventude. Quase inútil dizer, parte dessas lembranças se situa ao longo da ditadura militar chilena, essa cicatriz histórica que nunca fecha após ter produzido tantas vítimas.

O estilo de Caiozzi é às vezes um tanto barroco, apela para o onírico, não tem pressa em cortar as cenas e é sempre sedutor. Fascina o espectador que consente em embarcar nesta longa, às vezes penosa e recompensadora viagem de um homem ao interior de si mesmo, e, sim, à história do seu país.

Caiozzi é um diretor quase bissexto. Realizou poucos longa-metragens. Os que conheço são muito significativos: Além deste  E de Repente o Amanhecer, dele vi La Luna en el Espejo e Coronación, baseado na obra de José Donoso.

Disse acima que o prêmio de público era surpreendente. Isso porque, às vezes preconceituosamente, tendemos a achar que o público só deseja facilidade. Tramas fáceis, curtas, superficialmente emotivas, etc. Bem, isso não é verdade. Depende do público. E depende do que se oferece a ele.  

O prêmio de co-produção internacional foi para A Outra História do Mundo, de Guillermo Casabranca, com César Troncoso no papel principal. O filme entrou hoje em cartaz em São Paulo e tem por palco histórico outra das nossas “queridas” ditaduras latino-americanas. No caso, a uruguaia. Troncoso vive o homem que adota uma curiosa resistência não violenta ao regime, dando aulas de História Universal na pequena e imaginária cidade de Mosquitos. Ele não pode falar do presente porque o chefe militar de Mosquitos determinou que a data mais próxima a ser contemplada no curso seria 12 de outubro de 1492, a descoberta da América por Cristóvão Colombo. Qualquer coisa mais recente poderia ser perigosa e prestar-se a interpretações subversivas.

Como as pessoas em nosso país parecem não aprender grande coisa com as lições da História, seria interessante verem essa curiosa reinterpretação dos fatos. Nem que fosse para rir um pouco. E pensar também.