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E ‘Aquarius’ não vai ao Oscar

Luiz Zanin Oricchio

12 de setembro de 2016 | 17h00

Sonia Braga, protagonista de 'Aquarius' e homenageada em Gramado

Sonia Braga, protagonista de ‘Aquarius’

Desculpem começar por uma anti-notícia: Aquarius, de Kléber Mendonça Filho, não foi o escolhido para disputar uma das vagas a filme estrangeiro no próximo Oscar.

E agora vamos à notícia, que fica necessariamente no segundo parágrafo: no lugar dele, a comissão formada pelo MinC apontou Pequeno Segredo, de David Schurmann, ainda inédito nos cinemas brasileiros.

Não conheço o filme. Sei que se trata de uma história em tese comovente, a de uma garotinha portadora de HIV adotada pela família de velejadores em uma de suas viagens pelo mundo. Sobre o filme escolhido, portanto, vou silenciar. Até vê-lo.

Todos sabem as circunstâncias envolvidas no caso Aquarius. O filme foi a Cannes disputar a Palma de Ouro. No tapete vermelho, a equipe exibiu cartazes denunciando o golpe em curso no país (o impeachment de Dilma ainda não havia sido concluído). Depois houve a comissão que iria escolher o filme para o Oscar. Um dos membros postou várias vezes no Facebook, condenando Kléber e sua equipe pelo protesto contra o impeachment.

Em solidariedade a Kléber, ou por discordar da maneira como a comissão foi formada, três diretores tiraram seus filmes da disputa: Anna Muylaert (Mãe só Há Uma), Gabriel Mascaro (Boi Neon) e Aly Muritiba (Para Minha Amada Morta). Dois jurados também se retiraram da votação, o cineasta mineiro Guilherme Fiúza e a atriz baiana Ingra Liberato. Ocuparam suas vagas o cineasta Bruno Barreto e a atriz e diretora Carla Camurati.

Houve, ao mesmo tempo, o caso da censura a Aquarius para menores de 18 anos, um disparate que parecia apenas vingança de um governo irritado e pouco seguro de sua legitimidade. Depois recuaram e a classificação etária caiu para 16 anos.

Por fim, o filme estreou com ótima acolhida de público e crítica. Já anda perto dos 200 mil espectadores. É um sucesso para uma produção do seu tipo. Fala do Brasil, dos problemas do nosso país, do tipo de progresso predatório que adotamos. E o faz em linguagem inovadora, original, que nem por isso se torna hermética. É um filmaço. Mas esta é uma avaliação minha. E a de muitos outros colegas.

Talvez vendo Pequeno Segredo eu me renda diante da sabedoria da comissão do MinC e diga: “Este é o filme! Vocês fizeram muito bem em escolhê-lo”. Talvez ele conquiste corações e mentes, faça muito público, vá ao Oscar e dê ao Brasil a tão sonhada estatueta dourada, sem a qual nos sentiremos vira-latas para todo o sempre. Pode ser.  Enquanto isso vou aguardar.

De qualquer forma, essa comissão entrará para a História. Ou pelo maior acerto de todos os tempos na escolha de um concorrente brasileiro para o Oscar. Ou, pelo contrário, como a comissão que não enxergou o valor de um grande filme, ou cedeu a pressões para não indicá-lo.

De todas as formas, é uma comissão digna de ser lembrada. E, como tal, vale nomear seus membros, um a um, para que fiquem registrados:

Adriana Rattes, ex-secretária de Cultura do Rio de Janeiro

Beto Rodrigues, produtor

Torquato Firmeza, do Itamaraty

Marcos Petrucelli, da rádio CBN

Paulo de Tarso Menelau, da rede exibidora Moviemax

Silvia Rabello, presidente da Abeica (Associação Brasileira de Empresas de Infra-Estrutura de Indústria cinematográfica e Audio-visual)

Sylvia Bahiense Naves, assessora técnica em Acessibilidade do Audiovisual, da Secretaria do Audiovisual do MinC

Carla Camurati, atriz e cineasta

Bruno Barreto, cineasta

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