E agora, foi-se Odete Lara
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

E agora, foi-se Odete Lara

Luiz Zanin Oricchio

04 de fevereiro de 2015 | 20h13

 

Odete

 

 

Olhem a elegância de Odele, com seus óculos escuros e foulard, entre Ivana Bentes e Zuenir Ventura

Olhem a elegância de Odete, com seus óculos escuros e foulard, entre Ivana Bentes e Zuenir Ventura

Eu não aguento mais dar notícia de morte de gente querida ou que admirava, ou ambas as coisas. Mas, o que fazer? Agora, foi-se Odete Lara que, sirva de consolo, viveu uma longa vida. 85 anos! Quem diria. Parece óbvio, mas as musas também envelhecem. E morrem. Outro dia foi a vez de Anita Ekberg. E agora, Odete.

Sempre admirei, com o intelecto e os sentidos, a atriz que via em filmes como Noite Vazia e O Boca de Ouro. Mas, quando a conheci, Odete era uma gentil senhora. Depois de haver atravessado a fama e o inferno, que havia exorcizado em seus quatro livros de memórias, encontrou o que parecia a paz. Nos conhecemos num seminário promovido pela prefeitura de Porto Alegre, em 1997, acredito. Sua companhia serena, simples e inteligente era uma delícia. Estava bem demais.

Depois soube que teve problemas de saúde, quebrou o fêmur, deprimiu-se…essas coisas da velhice. Que agora esteja em paz. A definitiva.

Abaixo, o link para o texto que escrevi sobre ela para o jornal. E, sim, permito-me colocar a foto da nossa “turma” de Porto Alegre porque foi um período muito feliz. Para nós todos e, quero acreditar, para ela também.

http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,a-beleza-jovem-de-odete-lara-era-impressionante,1629557

Abaixo, o texto completo:

A beleza jovem de Odete Lara era impressionante. Os olhos separados, o
nobre formato do rosto, o sorriso distante, de canto de boca, a
cabeleira loura e espessa. Nunca esteve tão bonita quanto em Noite
Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri, no qual contracena com outro
prodígio, Norma Bengell. As duas interpretam prostitutas de luxo que
saem com os entediados homens de negócios vividos por Mario Benvenuti
e Gabriele Tinti. Esse, talvez, seja o chamado “filme emblemático” de
Odete, aquele primeiro que nos vem à mente quando recebemos a notícia
de sua morte, aos 85 anos.

No entanto, a atriz, cujo nome civil era Odete Righi, chegara antes ao
cinema, com participações em O Gato de Madame e Arara Vermelha (1957),
Moral em Concordata (1959) e Mulheres e Milhões (1961), entre outros.
O próprio Khouri, cujo olho clínico para mulheres bonitas nunca foi
contestado, já a havia escalado em A Garganta do Diabo (1959). Mas foi
em Noite Vazia que Odete chegou ao ápice, não apenas como figura
fulgurante na tela, mas como excelente atriz.

Excelente e versátil. Odete jogava bem com a sensualidade agressiva
de Noite Vazia e com brejeirice suburbana de O Boca de Ouro (Nelson
Pereira dos Santos, 1962), adaptado de Nelson Rodrigues. Neste, Odete,
com um inesquecível vestido de bolinhas, vivia Guiomar, a antiga
amante do bicheiro assassinado e que, com seus depoimentos, às vezes
contraditórios, tenta reconstruir a personalidade multifacetada do
falecido Boca (Jece Valadão).

O fato é que, com sua presença carismática, Odete Lara se transformou
numa personalidade do meio artístico e foi chamada para diversos
filmes desta que, para muitos, foi a mais criativa fase do cinema
brasileiro. Musa do Cinema Novo, atuou com o guru do movimento,
Glauber Rocha, no experimental Câncer e em O Dragão da Maldade contra
o Santo Guerreiro (ambos de 1968). Também trabalhou com Cacá Diegues
em Os Herdeiros (1970), uma alegoria da política vista como tragédia,
em plena ditadura. Fez ainda filmes notáveis como Copacabana me Engana
(1969)e A Rainha Diaba (1974), ambos de Antonio Carlos da Fontoura, e
Lúcia McCartney – uma Garota de Programa (1971), com David Neves,
baseado em Rubem Fonseca.

Odete Lara se tornou uma personalidade pública, sinônimo
de mulher bonita, libertária e inteligente. Um logotipo ambulante da
moderna mulher brasileira, um pouco como foi Brigitte Bardot na
França. Mulheres livres, lindas, senhoras do seu corpo e do seu
desejo.

Com sua voz pequena, porém sensual, Odete chegou a gravar um disco
famoso com o pessoal da bossa nova, Vinicius de Moraes e Baden Powell,
chamado simplesmente Vinicius & Odete Lara, com músicas da dupla Baden
e Vinícius como Berimbau, Só por Amor, Samba em Prelúdio e Labareda. O
selo? Só poderia ser Elenco, de Aloysio de Oliveira, notório inventor
desta e de outras bossas.

A vida agitada apresentou a conta e Odete Lara conheceu seu inferno
pessoal quando ainda poderia ter feito muitos e muitos outros filmes,
acompanhando a evolução (ou involução) do cinema brasileiro pós anos
1970. Nesse período sua presença nas telas foi esporádica – A Estrela
Sobe (1974), O Princípio do Prazer (1978), Um Filme 100% Brasileiro
(1982-85), Vai Trabalhar Vagabundo 2 – a Volta (1991). Odete, nessa
época, ressentia-se de uma vida complicada deste o início, com o
suicídio da mãe, uma série de amores frustrados, envolvimento com
drogas, e um longo etc.

A uma carreira aos trancos e barrancos, preferiu o recolhimento e a
solidão e, depois de tantas tormentas, encontrou a paz, ou
reencontrou-se consigo mesma, termos equivalentes. Escreveu e lançou
quatro livros dando testemunho desse processo de autoconhecimento
através da meditação e do Budismo. Dois deles serviram de base a Lara
(2002), longa-metragem de Ana Maria Magalhães sobre a vida da atriz.

Quem a conheceu nessa fase madura sabe que não havia mulher mais
serena, simples e segura de si que Odete Lara. O que mais pode desejar
uma vida humana que chegar ao ápice e depois declinar em paz, sem
remorsos ou ressentimentos?

Tudo o que sabemos sobre:

Odete Lara