E a grande Anita Ekberg se foi…
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E a grande Anita Ekberg se foi…

Luiz Zanin Oricchio

11 Janeiro 2015 | 14h43

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Ela é protagonista de uma das cenas mais famosas de toda a história do cinema. Quem não se lembra da loira deslumbrante, de vestido de gala e generosíssimo decote, banhando-se nas águas da Fontana di Trevi, na Roma de La Dolce Vida (1960), de Federico Fellini? Anita Ekberg, a Anitona, nos deixou hoje, aos 83 anos.

Fellini conta que, quando viu a sueca pela primeira vez, pensou que aquela era como uma ideia platônica de mulher. ” A Mulher, assim, com maiúscula, representando em si todo um ideal masculino do sexo, com aqueles cabelos, os lábios, os seios, os dentes, a pele. Uma fascinação que, na cena da Dolce Vita, deixa completamente siderado o jornalista vivido por Marcello Mastroianni. Ele entra na fonte romana, atrás da deusa, para beijá-la, até que…A cena é irresistível, e colocou no imaginário mundial a atriz, o ator e a própria fonte, esculpida por Bernini.

Esses atributos da fêmea ideal (com todo respeito) fizeram com que Fellini a chamasse de novo para o episódio por ele dirigido em Bocaccio 70 (1962). Em As Tentações do Doutor Antonio, Anitona é uma foto num cartaz de publicidade…de leite, de que mais? Em frente ao outdoor gigante mora o tal doutor Antonio Mazzuolo (Peppino De Filippo), moralista que, como todos os de sua classe, experimenta dificuldades em reprimir desejos inconfessáveis e por isso ataca o seu objeto. Sua indignação chega ao auge com a musiquinha que acompanha a propaganda do leite, cantada até por criancinhas na praça: “Bevete più latte/que latte fa bene/que latte conviene a tutte l’età”. O leite, seiva da vida, convém, e, vindo do amplo regaço de Anita, mais ainda. Para enlouquecer qualquer paladino da moral e dos bons costumes.

Grande Anita. Depois a vimos, já matrona, em Entrevista (1987), também de Fellini, e, pior, em Bambola (1996), do iconoclasta Bigas Luna, já gorda demais, descabelada, numa personagem excessiva, alcoólatra, destripando peixes em uma bancada de madeira.  O que não faz o tempo…

Mas a Anita que ficou para nós é aquela da Fontana di Trevi em seu tomara-que-caia preto. E a fêmea gigante a atormentar – e acalenta – o desejo do Doutor Antonio, e o de todos nós, mortais, que a víamos imensa, na ampla tela dos cinemas de antigamente. Anita nasceu para ver vista assim, na tela grande, em meio à penumbra.

Salve, Anitona, que muito nos fez sonhar.