Dzi Croquettes
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Dzi Croquettes

Luiz Zanin Oricchio

16 de julho de 2010 | 08h50

dzi

Era uma história que precisava ser lembrada: no auge da repressão política, um grupo teatral desafia os costumes conservadores de uma época triste. Os Dzi Croquettes botaram cor numa época cinzenta. Quem eram eles? Treze rapazes de pernas peludas, travestidos de mulher e fazendo a maior anarquia no palco. Eram hilários. Depois se descobriu que eram alguma coisa além de engraçados. Os Dzi fizeram sucesso e pagaram alto preço pela ousadia. Tudo está no filme que leva o nome do grupo e é codirigido por Tatiana Issa, filha de um dos seus ex-integrantes.

Como documentário, Dzi Croquettes não escapa à estrutura formal que vem se repetindo no cinema brasileiro – mescla imagens de arquivo e depoimentos para montar uma história com começo, meio e fim. Escapa da mesmice, no entanto, pela originalidade das imagens (descobriram até um filme em super-8 que registra a passagem do grupo pela Europa) como pela intensidade dos depoimentos. Bem, pelo menos de alguns deles. Claudio Tovar fez parte do grupo e fala muito bem sobre o que significou. Lisa Minelli (sempre ela) amadrinhou a carreira internacional dos Dzi e se refere a eles com grande carinho. Ficam na memória, também, as imagens que registram a presença do grande Lennie Dale, cantor, coreógrafo e dançarino americano que se radicou no Brasil e teve participação intensa na cultura da bossa nova. Ao assumir o grupo, Dale passou a levá-lo com rédea curta, ensaiando as coreografias horas a fio, até saírem perfeitas. Toda aquela desordem no palco era produto tanto da espontaneidade como do trabalho exaustivo.

E, sim, há a época, recortada também em imagens de arquivo e sem a qual o sentido dos Dzi Croquettes escaparia. O documentário não pretende ser didático, mas em suas poucas linhas desenha o clima do período. O Brasil, desde 1964 em regime ditatorial, entra, a partir de dezembro de 1968, no túnel escuro do AI-5. Era o terror. E, com ele, o desmantelamento da participação política ou a opção pela luta armada. A outra alternativa se dava no campo comportamental. Se o sufoco era completo, a saída era o que se chamava de desbunde. O Brasil, claro, não estava isolado do ambiente internacional, do movimento hippie e da contracultura. Era, apenas, um caso particular. E um caso sui generis, pois, em meio à repressão mais violenta e à moral oficial mais carola, nasciam os movimentos mais avançados do ponto de vista dos costumes. Tantos anos depois, a nossa época atual parece espantosamente careta em relação ao que se fazia nos anos 1970.

Os Dzi Croquettes eram parte disso. Surfavam na onda ao mesmo tempo em que ajudavam a formá-la. Nesse sentido, extrapolam o âmbito do movimento gay. Mesmo porque produziram filhotes como o grupo de mulheres Dzi Croquettas, embrião das Frenéticas. Essa atitude anárquica catalisava tanto o sentimento de revolta generalizado como a aspiração de liberdade pessoal, aquela de fazer do corpo o que bem se entende. O desejo, em suas múltiplas formas, recobrava seus direitos, o que desagradava tanto à moral padrão de direita quanto aos militantes da esquerda tradicional. Os Dzi Croquettes fizeram história. Era só preciso contá-la.

(Caderno 2, 16/7/10)