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Duelo de letras e futebol

Luiz Zanin Oricchio

20 de novembro de 2010 | 21h30

Não poderia haver definição mais feliz para a polêmica entre Lima Barreto e Coelho Neto do que esta de Mauro Rosso: um Fla-Flu literário. Sim, porque, como o autor descreve, a oposição entre os dois escritores foi inconciliável como a de torcedores de clubes rivais e tinha por pomo de discórdia o futebol, em sua época de afirmação no País.

Hoje em dia é curioso constatar que o “elitista” Coelho Neto fosse fã declarado do futebol e o “popular” Lima Barreto tivesse horror a ele. Normalmente, tenderíamos achar que seria o contrário, porque temos em vista a extraordinária popularidade que esse esporte atingiu em nossos dias. No entanto, quando da chegada do jogo da bola ao Brasil, deu-se o contrário. Era esporte de elite, jogado por jovens brancos bem de vida e vedado aos negros e pobres. Foi apenas em 1922, ano da morte de Lima Barreto, que o Vasco da Gama tornou-se o clube pioneiro em aceitar jogadores negros em seu quadro. A profissionalização do esporte, formalizada em 1930, abriu de vez as portas do futebol para as classes trabalhadoras, que então podiam fazer dele o seu ganha-pão.

Nada disso era sequer pensável nas primeiras décadas do século 20, quando os escritores então se digladiavam. Mas havia algo mais que o jogo de bola a separar os rivais – eles representavam escolas literárias opostas. Coelho Neto era dono de estilo pomposo, pontuado de referências clássicas. Lima Barreto aproximava sua prosa da fala do homem da rua. As visões de mundo também eram diversas. Coelho Neto tinha na Europa seu horizonte intelectual. Lima Barreto era um nacionalista, desconfiado com o que vinha de fora. Naquela época, o futebol era ainda um estrangeiro em via de adaptação ao País.

Mas era uma aclimatação que se fazia a toque de caixa. Cedo tornou-se popular, apesar da origem de elite. Passou a ser jogado pelo povo, meio às escondidas. E a paixão clubística virava fanatismo, dando origem a invasões de campo, xingamentos e agressões – para desgosto do pacifista Lima Barreto.

Coelho Neto era de outra escola. Enxergava no esporte um elemento saudável para o desenvolvimento da juventude. O futebol estava, por assim dizer, em seu DNA. Tanto que seu filho, João Coelho Neto, o Preguinho, foi campeão carioca pelo Fluminense e integrou a seleção brasileira na primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai.

Enfim, Lima e Coelho Neto eram duas mentalidades opostas, em face da mesma realidade. O engraçado é constatar que, no que diz respeito ao futebol, era o conservador Coelho Neto e não o inovador Lima Barreto quem tinha razão.

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