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Duas rainhas

Luiz Zanin Oricchio

05 de fevereiro de 2007 | 20h00

Estive sábado no festival de Santos e lá assisti a Maria Antonieta, de Sofia Coppola. Hoje de manhã revi, em cabine de imprensa, A Rainha, de Stephen Frears, que já havia visto em Veneza. Dois filmes sobre a monarquia, mas é o que têm de semelhantes.

O de Sofia, baseado em livro de Antonia Fraser, parece mostrar Maria Antonieta como uma adolescente fútil, inocente e inconsciente de tudo. Poderia ser uma das nossas teenagers, ocupadas com fuxicos e namoricos. A sugestão de Sofia chega ao ponto de mostrar um moderno par de tênis no armário de sapatos reais.

Já no filme de Frears, que deve dar o Oscar de interpretação feminina a Helen Mirren, o universo é adulto. A pergunta é: o que fazer com o protocolo numa condição excepcional como a morte de uma princesa amada pelo povo como foi Diana? O que se costura, em tessitura delicada, é o mundo das conveniências políticas, o universo da imagem cujos representantes mais evidentes são os paparazzi, o suave jogo de contrastes e conveniências que existe entre o governo civil britânico e a instituição da monarquia.

Como nem o filme de Sofia Coppola nem o de Stephen Frears são abertamente antimonárquicos, devem receber a carga de artilharia pesada que foi destinada, antes deles, a Eric Rohmer e seu A Inglesa e o Duque, que ousa mostrar a Revolução Francesa pelo ponto de vista dos nobres. São discussões “válidas” (como se dizia nos anos 60), mas talvez o que esses filmes tenham de melhor seja a janela que abrem para um mundo pouco representado nas telas. Afinal, como disse Rohmer, Jean Renoir já havia registrado o ponto de vista do povo em La Marseillaise e ninguém poderia imitá-lo sem o risco de cair no ridículo.

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