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Duas mortes

Luiz Zanin Oricchio

27 Abril 2007 | 17h44

Liguei para o jornal (aliás, comuniquei-me via Messenger) e soube de duas mortes: a de Jack Valenti e Mitzlav Rostropovich. O que existe de comum entre os dois homens? Nada, que eu saiba. Rostropovich é o violoncelista magnífico, um dos maiores do século, depois de Casals. Quando viajo, costumo levar comigo sua versão das Suítes de Bach. Elas têm me feito companhia em vários lugares do mundo e sossegado minha alma diante de intempéries. Dá para imaginar a dívida de gratidão que tenho com esse russo?

Nunca conheci pessoalmente Jack Valenti, mas sua fama atravessou fronteiras como o maior lobista do cinema americano no mundo. Suas festas no Rio ficaram famosas, regadas a caviar e estrelas de Hollywood, porque a tática era não só impor os filmes pelo poder econômico mas pela força da sedução. Arnaldo Jabor dedicou um poema famoso a ele. Valenti, enquanto exerceu o cargo de presidente da MPA (Motion Pictures Association), desfrutava de status de ministro de Estado do governo dos Estados Unidos. Eles sabem lá da força da cultura e um presidente, não sei se Roosevelt, disse certa vez “Onde nossos filmes entram, nossos produtos entram atrás”. Conhecem o valor-negócio do cinema, e Jack Valenti foi sua ponta-de-lança nesse domínio em escala planetária. Uma vez entrevistei seu diretor para a América Latina, Steve Solot, e fiquei fascinado por esse universo no qual o cinema não passa de uma mercadoria e o mercado é um espaço a ser ocupado por uma estratégia de guerra. Os brasileiros estão no pré-primário desse curso.