Drama político indiano vence o Olhar de Cinema
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Drama político indiano vence o Olhar de Cinema

Luiz Zanin Oricchio

09 de junho de 2022 | 19h03

Uma Noite Sem Saber Nada

 

O drama amoroso-político indiano Uma Noite Sem Saber Nada, de Payal Kapadia, levou o prêmio principal do 11º Olhar de Cinema, o festival de Curitiba. Ontem escrevi sobre ele e simplesmente reproduzo aqui as palavras para quem não tiver lido o texto anterior. Não mudei de opinião de um dia para outro: 

Uma Noite sem Saber Nada (Índia), de Payal Kapadia. Uma jovem estudante de cinema remete cartas audiovisuais ao seu namorado, de quem está separada por fazer parte de uma casta inferior. Imagens de festas e comemorações são logo substituídas pelas de manifestações no campus da Universidade de Bombaim. Os estudantes de cinema protestam porque um ator reacionário foi indicado como diretor da escola. O pau quebra, a polícia invade o câmpus, agride e encurrala os estudantes. As cartas íntimas transformam-se em missivas políticas. A temperatura sobe e, com ela, a obra alça voo, tornando-se um imersivo filme-ensaio, documento de geração e de um estado de coisas num país dominado pelo conservadorismo e tradições vencidas. Mais uma vez, neste Olhar de Cinema, a juventude tem a (melhor) palavra. 

O júri há de ter suas razões para esta opção. Não seria a minha escolha, embora veja qualidades na obra. Gostei do filme, mas vi outros com maior interesse, do meu ponto de vista, é claro. Por exemplo, A Censora, da Eslováquia, trata um tema difícil (mulheres que dão à luz na prisão) com infinita delicadeza. Achei também que dois brasileiros presentes na mesma mostra mereciam melhor sorte – Alan, sobre a falha trágica do País através da trajetória de um artista do rap; e Paterno, sólido do ponto de vista formal e rara tentativa do cinema nacional em propor uma cartografia moral da classe alta. Pelo jeito não foi bem compreendido, apesar da interpretação em alto nível de Marco Ricca no papel principal.  

Já a tripla premiação de Freda, de Géssica Généus, me parece francamente excessiva. O longa haitiano levou o Prêmio Especial do Júri Oficial, o Prêmio da Crítica (Abraccine) e o Prêmio do Júri Popular. Quanta unanimidade! No drama da garota que dá nome à obra, vi, sobretudo, sinceridade e, claro, emoção baseada na simpatia que somos ainda capazes de sentir pelos outros, mesmo nestes tempos embrutecidos. Se esse conjunto de sentimentos mostra-se capaz de explicar tanta convergência de opiniões favoráveis, não sei. Aliás, é difícil isolar aquilo que nos conquista num filme, ou nele nos repele. Mas algum espaço desse processo de escolha deve, por certo, ser reservado à fatura da obra, penso eu. Ou seja, aos seus meios de composição. 

O longa documental 7 Cortes de Cabelo no Congo, de Luciana Bezerra, Gustavo Melo e Pedro Rossi, ganhou como melhor filme brasileiro, considerando-se todas as mostras. Muito original, tem o protagonismo de um imigrante congolês, Mestre Pablo, que mantém um salão de cabelo em Brás de Pina. Enquanto atende a clientes, Pablo conversa com eles e o objeto do papo é sempre a política africana, sobretudo em relação ao país deles, o Congo. Uma visão interna da África, do processo de colonização e da exploração européia e norte-americana, emerge dessas conversas informais, porém baseadas em observações geopolíticas bastante agudas, e tanto carregadas de emoção como de razão. Gostei muito.  

 Jet Leg, de Xinyuan Zheng Lu (China), venceu a Mostra Novos Olhares com seu depoimento da volta da autora para a China em plena pandemia, ao mesmo tempo em que “viaja” no tempo para desvendar o mistério do seu bisavô, que no passado emigrou para Myanmar. É um filme de fluxo, livre-associativo, que tem lá seus encantos, embora às vezes me pareça um tanto frouxo na maneira como tenta entrelaçar esses dois pontos no tempo. 

Já a premiação de Grace Tomada Única, de Lindiwe Matshikiza (África do Sul), que levou a Menção honrosa da Mostra Novos Olhares, foi recebida com entusiasmo pelo público que acompanhava a cerimônia na sala Valêncio Xavier no Cinema do Passeio. Podia ser pela presença tanto carismática quanto simpática da sul-africana Grace, cuja vida é contada no longa em um mix de doc em primeira pessoa com montagem em videoarte. Nesse caráter híbrido, o filme é muito eficaz e traz à luz um retrato dos mais dolorosos da realidade sul-africana. O bom humor permanente de Grace testemunha uma misteriosa resistência aos sofrimentos por que passou em sua existência.  

Poeta, de Darezhan Omirbayev (Cazaquistão), foi considerado o melhor filme da Mostra Outros Olhares. É bonito, sem dúvida. Costura presente e passado, jogando em contraponto um poeta contemporâneo, Didar (Yerdos Kanayev) e outro de época anterior. Tem lá seu encanto, mas, para ser franco, nessa mostra eu teria ficado com o coreano Quente de Dia, Frio à Noite, com seu tratamento da questão do dinheiro de uma maneira corrosiva que lembra algumas páginas de Balzac. Ou mesmo o documentário Octopus, de Líbano, pungente registro sobre o cotidiano das pessoas depois da terrível explosão no Porto de Beirute. 

Cabe, mais uma vez, lembrar da importância da mostra Olhar Retrospectivo, que trouxe este ano a obra radical – e de fina composição – da norte-americana Su Friedrich. 

No centenário de Nanoouk, o Esquimó, de Robert Flaherty, fomos brindados com uma cópia restaurada desse clássico, e na tela grande de um cinema tecnicamente muito bem equipado. É um privilégio ver tal obra, que completa 100 anos de idade, em condições ideais. 

 

OS VENCEDORES

 

. “Uma Noite Sem Saber Nada”, de Payal Kapadia (Índia) – melhor filme

 

. “Freda”, de Géssica Généus (Haiti) – Prêmio Especial do Júri Oficial, Prêmio da Crítica (Abraccine), Prêmio do Júri Popular

 

. “7 Cortes de Cabelo no Congo”, de Luciana Bezerra, Gustavo Melo e Pedro Rossi (Rio de Janeiro) – melhor filme brasileiro (de todas as mostras competitivas)

 

. “Jet Leg”, de Xinyuan Zheng Lu (China) – melhor filme da Mostra Novos Olhares

 

. “Grace Tomada Única, de Lindiwe Matshikiza (África do Sul) – Menção honrosa da Mostra Novos Olhares

 

. “Poeta”, de Darezhan Omirbayev (Cazaquistão) – melhor filme da Mostra Outros Olhares

 

. “ Trio em Mi Bemol”, de Rita Azevedo Gomes (Portugal) – melhor contribuição artística

 

. “Mal di Mare”, de João Vieira Torres (Brasil) – melhor curta

 

. “Garotos Ingleses”, de Marcus Curvelo (Bahia) – melhor curta da Mostra Novos Olhares

 

. “O Hábito de Habitar”, de Nicolás Pérez (Brasil, Chile, Haiti), representante da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana)- Prêmio Avec de melhor filme na Mostra Mirada Paranaense

 

. “Upa, Neguinho”, de Douglas Carvalho dos Santos – Menção honrosa do Prêmio Avec na Mostra Mirada Paranaense

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