Dona Lúcia, a Mãe
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Dona Lúcia, a Mãe

Luiz Zanin Oricchio

03 de janeiro de 2014 | 19h56

Morreu hoje Dona Lúcia Rocha, mãe do cineasta Glauber Rocha (1939-1981). Dona Lúcia tinha 94 anos e em poucos dias completaria 95. Era uma figura conhecida e amada por todos os que gostam do cinema brasileiro.

Uma guerreira, uma fortaleza, era como todos a definiam. Dona Lúcia perdeu três filhos e tocou a vida adiante. Ana, uma das filhas, morreu ainda criança, de leucemia. Anecy Rocha morreu num acidente de elevador em 1976 e Glauber voltou doente de Portugal para morrer no Rio poucos dias depois, em 1981.

Dona Lúcia fundou o Tempo Glauber, em Botafogo, seu legado maior. Sempre às voltas com dificuldades, a entidade tem por fim conservar o imenso legado de Glauber sob a forma de desenhos, textos, projetos acabados e inacabados, que ele foi deixando para atrás e ela foi colecionando ao longo da vida. É um tesouro, do nosso cineasta maior.

Durante muitos anos convivemos com Dona Lúcia. Era presença indispensável nos festivais de cinema, em especial o de Brasília. Todos a tratavam com grande carinho e ela retribuía. Era, um pouco, a mãe de todos nós. Mas o sentido de sua presença nessas festas do cinema era sempre o mesmo – a preservação ativa da memória do filho. Por exemplo, numa das edições, levou uma cópia do raro História do Brasil, de Glauber e Marcos Medeiros, um filme que poucos de nós conhecíamos.

Numa das vezes em que a entrevistei fomos à praia de Buraquinho, perto de Salvador, onde Glauber filmou seu primeiro longa, Barravento (1962). Dona Lúcia, que era também muito bem-humorada, contou histórias divertidas sobre aquela produção precária de um dos primeiros títulos do Cinema Novo.

Convivíamos muito na Jornada de Cinema da Bahia, onde também era habituée. Lembro da preocupação de Guido Araújo, diretor da Jornada, depois de um jantar: “Agora a Dona Lúcia cismou de ir ao Pelourinho…”E lá fomos ao Pelô, escoltados pela velhinha. Acho que isso se deu por ocasião do lançamento em Salvador de Cartas ao Mundo, a correspondência ativa e passiva de Glauber organizada por Ivana Bentes.

Rô e eu gostávamos muito dela. Era uma figura simbólica do cinema brasileiro, mas também uma amiga mais velha e muito chegada. Nos últimos anos, Dona Lúcia deixara de ir aos festivais. Sabíamos a razão. Era a idade. Perguntávamos sempre por ela a Paloma, sua neta, filha de Glauber e Helena Ignez. Paloma nos dizia: estava velha mas ia bem… Agora se foi, em idade provecta e vida bem vivida. Tenho certeza de que foi em paz.

A importância de Dona Lúcia para a cena cultural brasileira foi reconhecida numa biografia escrita por José Roberto Arruda e num filme realizado por Fernando Belens e Umbelino Brasil, A Mãe.

 

 

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