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Dólares de Areia

Luiz Zanin Oricchio

28 de abril de 2015 | 22h41

Geraldine Chaplin interpreta Anne, a turista europeia que vai à República Dominicana em busca de sol e prazer. Dólares de Areia poderia ser apenas uma caricatura do turismo sexual, não fossem a delicadeza com que a história é tratada e a dedicação do elenco em jamais resvalar para a caricatura nesse tema tão propício aos clichês.

Um casal jovem (vivido pelos estreantes Yanet Mojica e Ricardo Ariel Toribio) vive de expedientes, em especial a ligação de Noeli (Yanet) com estrangeiros em busca de sexo. Para ela não faz diferença se com homens ou com mulheres, contando que o dinheiro entre em caixa. O namorado é seu cafetão ocasional. No entanto, essa relação é, digamos assim, tão informal, que joga a história numa certa penumbra. Não sabemos, por exemplo, se o relacionamento de Yanet com Chaplin se dá apenas por dinheiro ou se envolve também algum tipo de sentimento.

De qualquer forma, a dupla de diretores, a dominicana Laura Amélia Guzman e o mexicano Israel Cárdenas, busca estabelecer o contraste sem meios-tons entre a opulência dos turistas endinheirados que visitam o país e a parte miserável da população. Mais uma vez, a tentação do clichê. Só que, no caso, evitado pela zona de sombra que se estabelece entre uns e outros. Os turistas não são monstros. Há, entre eles, pessoas apenas carentes, e muito frágeis. E os que oferecem seus, digamos assim, serviços sexuais não são pintados como meros exploradores. Apenas desejam melhorar de vida e, eventualmente, algum laço de afeto, que vai além do dinheiro, pode se estabelecer entre eles e seus clientes.

Ou seja, Dólares de Areia trabalha nessa linha fina –  cada vez mais exígua no cinema – na qual passeia a complexidade dos sentimentos e da sexualidade humana. O cinema, entre todas as artes, parece a mais refratária a qualquer tipo de complexidade. Na época dos blockbusters, a palavra de ordem do cinema mainstream é separar com clareza o bem e o mal, o claro e o escuro. Dúvidas são para “intelectuais” e o público não quer saber de nada disso. Por sorte, o casal que dirige Dólares de Areia prefere a contramão e, ao invés de certezas obtusas, opta pelas dúvidas da dubiedade e a profundeza dos sentimentos.

O filme muito se beneficia da espontaneidade da dupla Yanet Mojica e Ricardo Ariel Toribio. Estreantes, ou “atores naturais”, às vezes exibem esse frescor vindo do anonimato, pois jamais foram vistos na tela. São rostos e corpos novos sem a técnica e os vícios dos profissionais. Mas a verdade é que o impacto maior de Dólares de Areia deve-se a uma veterana de tantos filmes e sobrenome mais do que ilustre,a septuagenária Geraldine Chaplin. Sem disfarçar as rugas e a (só aparente) fragilidade do corpo, Geraldine compõe sua personagem Anne de maneira comovente. Ela não é apenas uma turista sexual querendo comprar um corpo jovem com seus euros, ou dólares, vá lá. Talvez busque alguma coisa maior, embora seja inteligente o suficiente para saber que  amor a soldo é moeda que sempre reembolsa menos que seu valor de face. Não fosse essa dicotomia profunda, essa cisão entre o que sabe e o que sente, a história seria apenas banal.

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