Dois Tempos: retrato da nova classe média
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Dois Tempos: retrato da nova classe média

Luiz Zanin Oricchio

07 Abril 2011 | 10h20

O jargão econômico fala em “nova classe média” e o documentário Dois Tempos, de Dorrit Harazim e Arthur Fontes, dá rosto e alma a esse conceito abstrato. Dez anos atrás, em A Família Braz,os diretores haviam registrado o cotidiano e aspirações desse núcleo familiar do bairro da Brasilândia, em São Paulo. Voltam agora para revê-lo e checar como a sua vida se alterou.

Dos seis componentes da família Braz, cinco continuam a morar juntos. Apenas um, Anderson, casou-se. Dona Maria e seu Toninho, e mais Denise, Gisele e Éder continuam na casa– que, aliás, teve várias melhorias, feitas por seu Toninho, espécie de faz tudo em obras civis. Dona Maria continua trabalhando duro, mas encontra tempo para obras comunitárias. Denise, antes recepcionista, agora é vendedora. Gisele estuda pedagogia e Éder passou de motoboy a técnico de laboratório. Anderson, o filho que saiu, trabalha com seguros e dá palestras.

Os sinais de progresso são visíveis. Os Braz chegaram aos bens de consumo antes privativos da classe média tradicional: celulares, notebooks, cirurgias plásticas, cursos universitários e de inglês; e, luxo supremo, cruzeiros marítimos. Claro, cada membro da família Braz tem seu automóvel estacionado diante do sobrado da Brasilândia. Através de uma única família todo um movimento econômico-social do Brasil recente se insinua. Com a expansão da economia e do emprego, após anos de estabilidade, as condições de vida melhoraram.

O interessante do filme é que tudo isso é sugerido sem qualquer viés sociológico. A família Braz não é tomada a priori como exemplo particular de algo que seria uma tese a ser demonstrada. É apenas uma família, suficientemente diversificada entre seus membros para apresentar personagens humanos ricos e multidimensionais. E, para quem tem olhos e ouvidos para compreender o que dizem os membros da família Braz, aí temos um importante documento do Brasil contemporâneo.

Destoante do estereótipo cinematográfico que gosta de rimar periferia econômica com família disfuncional, vemos aqui uma família muito bem estruturada, Há diferenças entre seus membros. Seu Toninho é aquele que mais se aproximaria do clichê brasileiro. Tem seus laivos de bon vivant e gosta de uma cervejinha. Dona Maria é séria e dedicada. Os filhos, com variantes, alinham-se mais com a mãe que com o pai: são empreendedores, traçam objetivos, assimilam valores de classe média, perseguem seus sonhos de consumo.

O trabalho dos documentaristas se coloca no registro da empatia com os personagens. Acompanhamos a trajetória dos membros da família Braz conforme eles próprios a descrevem e passamos a ter com eles uma relação também de familiaridade. Simpatizamos com seus desejos e aspirações. Rimos com eles quando riem de si mesmos. E terminamos por desejar que consigam mesmo realizar todo seu ideário de progresso e felicidade. A família Braz é retrato perfeito do Brasil da era Lula, quando devaneios de ruptura social foram substituídos pela realidade mais palpável da inclusão.