Do jogo do bicho às milícias
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Do jogo do bicho às milícias

Luiz Zanin Oricchio

05 de maio de 2022 | 13h32

 

Muito boa a série Lei da Selva: a História do Jogo do Bicho, de Pedro Asbeg, na Globo Play. É, como já se disse, uma síntese da linha evolutiva do crime organizado no Rio de Janeiro, do final do século 19 aos dias atuais. 

Tudo começa com a inocente loteria inventada pelo barão de Drummond para financiar o zoológico de Vila Isabel no final do século 19. O barão teve a sacada: como os números são frios, associou um animal a cada cifra. Nascia o jogo do bicho. 

Virou febre. Tomou conta da cidade e passou a movimentar muito dinheiro. Os bicheiros ganharam poder e passaram a dividir zonas de influência. Diz-se que a profissionalização, para valer, veio da máfia italiana, que passou o know how aos cariocas.

Os banqueiros do bicho popularizaram-se investindo em atividades amadas pela população – escolas de samba e times de futebol. Davam assistência à comunidade carente. Tornaram-se populares e respeitados em suas áreas de influência. Ali onde o Estado não cumpre seu dever de casa, entra o crime. E o fanatismo religioso.

Os bicheiros fundaram uma associação para administrar conflitos entre eles. Funcionou, mas não de forma total e nem o tempo todo. As brigas por território sucediam-se e tornavam-se cada vez mais sangrentas. Foi preciso empregar profissionais da violência para oferecer segurança aos patrões. E também para cumprir ordens de execução de desafetos, traidores e rivais. Empregaram-se policiais, ex-policiais e membros do Esquadrão da Morte. 

Esses seguranças compreenderam logo a janela de oportunidade aberta e também se organizaram. Nascem as milícias. Seu campo de atuação originário é a comunidade de Rio das Pedras, na Barra da Tijuca. É criada a organização chamada Escritório do Crime, tida como responsável pelo assassinato de Marielle Franco. 

No último episódio, a família presidencial tem boa presença, mostrando intimidade com notórias figuras como Fabrício Queirós e os milicianos Ronnie Lessa e Adriano da Nóbrega, este último morto em Salvador em provável queima de arquivo. 

Essa linha evolutiva do crime organizado e suas relações perigosas com o Estado é narrada por Marcelo Adnet, com fluência e algum senso de humor, sempre que a circunstância permite. O material de arquivo é farto e bem utilizado. Há muitas imagens e depoimentos de bicheiros como Castor de Andrade, Anísio Abrahão David e Capitão Guimarães, no tempo em que estiveram na moda, viraram celebridades e desfilaram com ricaços e beldades na noite carioca. Todos acabaram em cana pela atuação corajosa da juíza Denise Frossard. 

Vários depoimentos ajudam a contextualizar o processo. Entre eles, o de Luiz Antonio Simas, escritor com sensibilidade para sondar a alma das ruas do subúrbio, as entranhas do samba e das escolas. O jornalista Bruno Paes Manso, autor de A República das Milícias – do Esquadrão da Morte à Era Bolsonaro (Todavia), não poderia faltar na série que fala justamente desse assunto.  

Quem assiste aos quatro episódios não encontra dificuldade em perceber o progressivo assalto do crime organizado ao Estado, através de conexões econômicas, políticas e de influência. Nos últimos anos, deixou de ser um assunto do Rio de Janeiro e tornou-se nacional. Nunca foi tão fácil ligar os pontos. 

A série é dedicada a Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março de 2018. Os mandantes do crime ainda não foram identificados. 

Serviço: capítulos exibidos às sextas-feiras, às 22h30 no Canal Brasil. A série, com seus quatro episódios, está disponível em streaming na Globoplay.   

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