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Django Livre

Luiz Zanin Oricchio

18 de janeiro de 2013 | 12h59

A História é uma matéria-prima plástica nas mãos de Tarantino. Ela a deforma, segundo sua percepção, de modo a colocá-la nos limites de sua visão de mundo. Quer dizer, ele a interpreta. Foi assim com o nazismo e a 2ª Guerra em Bastados Inglórios, é assim com a escravidão em Django Livre.

Mesclando o western spaghetti de Sergio Corbucci com o mito nórdico de Sigfried e Brünhilde, Tarantino conta essa bela história do escravo liberto, Django (Jamie Foxx), que, em companhia de um caçador de recompensas, King Schultz (Christoph Waltz), vai resgatar a sua esposa na fazenda de algodão de um proprietário diabolicamente maldoso, Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

Nessa reinterpretação ficcional sobre o horror da escravidão, Tarantino busca ao nó da questão, ao mostrar que quando um homem é transformado em objeto, ele será alvo de todos os piores instintos sádicos do seu “proprietário”. Calvin representa a síntese dessa perversão da posse, num belo trabalho de DiCaprio.

Mas, claro, o liquidificador pop de Tarantino evita que Django Livre seja um mero filme de denúncia. É verdade que ele vai ao paroxismo para deixar bem claro o que era a escravidão, sem qualquer disfarce. Os negros são tratados pelo pejorativo “nigger”, pronunciados pelos brancos o tempo todo, o que causou mal-estar na politicamente correta sociedade norte-americana. Acontece que era desse jeito mesmo que os senhores se referiam aos negros. Com a mesma falta de, digamos, pudor, Tarantino escancara as formas de tortura usadas à guisa de “reeducação” de faltosos. E, pior de tudo (na verdade, melhor), expõe a conivência de alguns negros na opressão do seu próprio povo. Esta é a função do personagem Stephen, criação brilhante de Samuel L. Jackson.

Sobre esse substrato de dolorosa verdade, Tarantino constrói a sua ficção, à maneira de uma ópera. Transforma essa saga sobre a escravidão, anterior à Guerra Civil, em uma grande e deliciosa aventura cênica. Primeiro, porque o rendimento dos atores é máximo, a começar por este notável Christoph Waltz, num papel desenhado especialmente para ele. Depois, porque filma com tal paixão que impregna a obra de um, digamos assim, “desejo de cinema”, muito raro de se encontrar hoje em dia.

Quer dizer, exibe toda uma sabedoria de cineasta sobre o ritmo, os cortes, as cores, os movimentos de câmera, os sons, a música. Enfim, o conjunto de qualidades formais a que chamamos de direção, e faz de Django Livre um prazer para olhos e ouvidos. (Daí a injustiça maior de Tarantino não ser indicado ao Oscar na categoria de melhor diretor).

Esse desejo que Tarantino coloca ao filmar, ele o transfere ao espectador. Trata-se de um prazer de cinéfilo, produto de milhares de filmes vistos, e executado na velha técnica da película em 35 mm. Mesmo que Tarantino recaia em eventuais exageros, como os inevitáveis banhos de sangue, o todo é tão envolvente que perdoamos de pronto esses pequenos pecados. Eles fazem parte do estilo Tarantino de ser.

 

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