Divino Amor ou o sono da razão
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Divino Amor ou o sono da razão

Filme de Gabriel Mascaro faz uma reflexão em torno da crescente força política no Brasil das religiões neo pentecostais

Luiz Zanin Oricchio

27 de junho de 2019 | 11h10

 

Em Divino Amor, de Gabriel Mascaro, o Brasil de 2027 foi transformado numa república religiosa, na qual o carnaval foi substituído por uma rave evangélica. Embora pensado há quatro anos e rodado há dois, Divino Amor ganha particular atualidade neste momento em que o Estado laico é contestado e corre perigo. 

A principal personagem é interpretada por Dira Paes no papel de Joana, uma burocrata que tenta dificultar pedidos de divórcio, em nome da família brasileira. Ela faz isso por amor. Como por amor faz várias outras coisas um tanto estranhas, como o espectador descobrirá. No entanto, Joana, tão ciosa dos valores da família, não consegue construir a sua própria, pois ela e o marido, o florista de funerais Danilo (Júlio Machado), não conseguem ter filhos. 

Joana se desespera e apela ao Senhor, que, como de hábito (Jó sabia disso), não responde. Queixa-se ao pastor, que atende aos fiéis em sistema de drive-thru. Onde está Deus que não a atende?

O visual é dominado por uma estética-neon difusa, como se houvesse uma espécie de véu separando o espectador das imagens. O artificialismo se deve ao trabalho fotográfico do mexicano Diego Garcia, que já trabalhou com Carlos Reygadas e Apichatpong Weerasethakul. Há uma voz infantil, que narra em off o desenrolar dos acontecimentos e os comenta. Adiciona outra camada de mistério a este filme intrigante. 

E digo isso porque Divino Amor parece especialmente respeitoso em relação à personagem principal e a todos os outros. Nota-se que Mascaro não quis fazer uma caricatura do ascendente poder evangélico no país, mas colocá-lo sob foco crítico. Daí que às vezes sentimos a falta de um toque à la Buñuel, diretor que talvez tenha simbolizado melhor o anticlericalismo no cinema. Eram outros tempos, mas, como verá o espectador, apesar do tom em aparência mais ameno, Mascaro não pega leve. Pelo contrário. 

No subtexto de Divino Amor aparece a crítica à disciplinarização dos corpos e dos desejos, mesmo que se dê pelo seu contrário, por um desregramento “em nome de Deus” e da humanidade sofrente. Sabe-se que o desregramento dos sentidos, como martirização da carne, foi uma das heresias da era cristã. Aqui, ela aparece travestida em sua modalidade moderna. E, neste ponto, sentimos, talvez, uma alusão ao Buñuel de A Via Láctea, um périplo pelas heresias (co-escrito com Jean-Claude Carrière) que pretende revirar a religião pelo avesso.

De qualquer forma, Divino Amor inscreve-se nessa reflexão urgente sobre o ressurgimento da fé religiosa num momento de falência utópica. Quando tudo parece precário e caótico, quando horizontes parecem turvos e o ressentimento molda as relações sociais criam-se excelentes condições para abrir uma igreja. 

O sono da razão produz monstros, dizia Goya. 

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