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Direitos humanos na tela

Luiz Zanin Oricchio

08 de dezembro de 2007 | 12h43

A cada ano alguém diz que o cinema político morreu… e é desmentido em seguida. A 2ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul é um desses desmentidos contumazes. Traz nada menos que 34 filmes, recentes e inéditos no Brasil, associados a cada um dos itens da Declaração Universal de Direitos do Homem. Ou melhor, quase sempre associados à violação dessa Carta da ONU, promulgada 59 anos atrás e nunca respeitada por completo. Dessa forma, a mostra, promovida pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, e convênios com o CineSesc e Cinemateca Brasileira, assume o tom de um inventário de mazelas do Cone Sul.

O principal destaque fica para a trilogia do argentino Fernando Solanas a ser apresentada hoje, na Cinemateca: Memória do Saque (14 h), A Dignidade dos Ninguéns (16h15) e Argentina Latente (18h30). Os filmes registram o colapso da economia argentina no quadro neoliberal implantado por Carlos Menem, e também as formas de resistência popular surgidas no caos. Retórico, o cinema de Solanas é muitas vezes pichado por parte da crítica contemporânea, que, do alto da sua infinita sapiência, considera-o esteticamente ‘obsoleto’.

Pode até ser, em certo sentido. Acontece que Solanas concebe o cinema não apenas como arte, destinada a embelezar um mundo feio, mas instrumento de investigação e, talvez, de intervenção política. Como diz o grande ensaísta Jean-Claude Bernardet, Solanas tem a coragem de ir ao centro da questão – o sistema financeiro – enquanto seus colegas brasileiros limitam-se a registrar os efeitos da crise sobre os pobres. Solanas vai às causas, como já fizera em seu La Hora de los Hornos, painel emblemático dos anos 1960.

Quem permaneceu na Cinemateca para o programa triplo de Solanas, e ainda tiver fôlego, pode esticar com o filme Matar a Todos, do uruguaio Estéban Schroeder, um trabalho de ficção. Na história, advogada, ex-presa política, tenta encontrar colaborador da ditadura Pinochet que estaria sendo acobertado pelo Exército uruguaio. O filme faz alusão ao ‘convênio’ entre as polícias políticas das diversas ditaduras sul-americanas nos anos 70, que levou o nome de Operação Condor.

Sobre esse tema, há também na mostra o documentário Condor, de Roberto Mader (hoje, às 17 h, no CineSesc). Após a sessão, haverá o debate Direito à Memória e à Verdade, com o ministro dos Direitos Humanos Paulo Vanucchi, o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh e a ex-presa política uruguaia Lilian Celiberti, vítima da Operação Condor.

(SERVIÇO)2.ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. CineSesc. R. Augusta, 2.075, 3082-0213. Cinemateca. Lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, 3512- 6101. Grátis (ingr. 1 h antes)

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