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Direito à moradia: À Margem do Concreto

Luiz Zanin Oricchio

04 Março 2007 | 11h01

Talvez relacionado ao post anterior. Entrou em cartaz um documentário de muita força: À Margem do Concreto, de Evaldo Mocarzel. Trata-se do segundo filme de uma tetralogia prevista sobre os destituídos da sociedade. O primeiro chama-se À Margem da Imagem e fala dos moradores de rua. Este trata dos sem-tetos. Os filmes seguintes serão sobre os que sobrevivem dos lixões e os que vivem na periferia da sociedade de consumo. O texto que se segue é a crítica que escrevi sobre À Margem do Concreto para o Caderno 2.

Há uma seqüência de puro cinema em À Margem do Concreto, um confronto com a polícia na tentativa de ocupação de um prédio abandonado no centro de São Paulo. A soma dos ruídos, gritos com as luzes e imagens difusas dos personagens cria uma tensão no espectador. Talvez esteja aí o núcleo de um filme que se deseja testemunho de uma outra tensão, e que não está nas telas dos cinemas mas nas ruas de São Paulo e outras metrópoles brasileiras. Essa tensão das desigualdades é que está colocada no filme – e, nessa seqüência, encontra sua linguagem plena.

Outro momento do filme a completa – é a imagem de um garotinho, dedo na boca, sonolento, indiferente à balbúrdia que acontece à sua volta durante a ocupação. Olhamos, vemos, a imagem passa, mas permanece na memória: cria um efeito inesperado. A criança, na nossa expectativa de classe média, deveria estar dormindo ao abrigo, brincando, vendo televisão, fazendo qualquer coisa, menos estar ali. Se o espectador não se importar com resto do filme talvez preste atenção nessa criança.

A câmera registra, recorta a realidade (a objetividade completa é um mito) e não interfere. O documentário não é apenas isso. Mescla-se também com o cinema de entrevistas e então se ouvem (e se vêem) as reivindicações, mas também o cotidiano daqueles personagens. Inclusive um psicodrama de casal que absolutamente não estava nos planos nem do cineasta e cria uma (oportuna) dissonância de expectativas no público.

Evaldo faz cinema político. Quer dizer, cinema com parti-pris. Desqualificar seu filme porque ele não contém ‘o outro lado’ é confundir cinema com jornalismo. Aliás, esse outro lado é o que mais aparece na TV. O lado a que o filme dá imagem e voz é que em geral fica oculto quando se fala do problema da habitação.
(SERVIÇO)À Margem do Concreto (Br/2006, 85 min.) – Documentário. Dir. Evaldo Mocarzel. 12 anos. Cine Bombril 2 – 18 h. Unibanco Arteplex 7 -13 h, 14h50, 16h30, 18h10,20 h. Cotação: Bom