Direita, esquerda, centro: apontamentos políticos
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Direita, esquerda, centro: apontamentos políticos

Luiz Zanin Oricchio

30 de novembro de 2020 | 14h25

A esquerda, por definição, aspira alterações profundas na estrutura na sociedade. Se não as deseja, não pode ser chamada de esquerda. Historicamente, essas transformações se deram por via revolucionária (Rússia, 1917; China, 1949; Cuba, 1959) ou eleitoral (Chile, 1970, com o desfecho que se conhece). No mundo atual não parece haver espaço para rupturas radicais, pelo menos até onde a vista alcança o horizonte. 

A centro-esquerda prefere mudanças mais suaves, tentando diminuir desigualdades sem ferir suscetibilidades (e bolso) do resto do condomínio. Foi assim o “reformismo fraco” de Lula (termo do sociólogo André Singer em Os Sentidos do Lulismo) que, sem mexer nos fundamentos do edifício, tirou milhões de pessoas da zona de pobreza. Mesmo agindo com luvas de pelica, Lula conseguiu desagradar partes importantes da sociedade. No Brasil, inclusão social já é coisa de comunista. E ai de quem falar em redistribuição de renda, que implica entre outras coisas em taxação dos mais ricos (Leiam os estudos, não-marxistas, de Thomas Piketty sobre a desigualdade). A centro-esquerda, quando no poder, caminha na corda bamba, com o espectro do golpe sempre a rondá-la. 

O centro e a centro-direita desejam, basicamente, a manutenção do status quo. Devem manter a aparência de que estão promovendo ajustes suaves, de modo a conservar o andar de baixo calmo e o andar de cima seguro. A melhor definição que conheço desse processo está na boca de um dos personagens do romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (filmado por Visconti): “É preciso mudar muita coisa para que, no fundo, nada mude”.  Claro, essa estabilidade nunca é alcançada pois a própria dinâmica da sociedade é a do conflito. De classes, no caso. 

A extrema-direita vê o projeto de estabilização da direita como avançado demais. Qualquer concessão às classes populares pode ser lida como sinal de fraqueza de quem realmente manda. Há hierarquias, econômicas, sociais, e mesmo sexuais, que precisam ser conservadas. Como recusa qualquer avanço, real ou aparente, permanente ou temporário, a extrema-direita desconfia também da direita e do centro. A extrema-direita é reacionária e não conservadora. Isto é, visa levar a sociedade a um status quo ante, a um estágio anterior, à uma suposta idade de ouro em que havia ordem, segurança, e cada indivíduo conhecia o seu lugar e se contentava com ele.

Resta dizer que, quando se sentem ameaçadas, direita e centro-direita não hesitam em se unir à extrema-direita e agir. Aconteceu na Itália fascista, na Alemanha nazista (Leia o ótimo A Ordem do Dia, de Éric Vuillard) e no Brasil em 2016, abrindo caminho para Bolsonaro, a consequência lógica do golpe. Tão logo o “perigo vermelho” é conjurado, o centro civilizado busca uma pia para lavar as mãos e desembaraçar-se dos aliados mais toscos. Mas às vezes os trogloditas ganham musculatura, tomam gosto pela coisa e levam os planos até o fim, como fizerem Mussolini e Hitler. E por aqui, em que fase estamos?  

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