Dino de Laurentiis, um pouco mais completo
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Dino de Laurentiis, um pouco mais completo

Luiz Zanin Oricchio

12 de novembro de 2010 | 14h20

Abaixo, um texto um pouco mais completo sobre Dino de Laurentiis. Hoje de manhã, minha mulher me repreendeu dizendo que eu tinha depurado a carreira do homem. De fato, ele produziu obras-primas mas também filmes como  Orca, a Baleia Assassina. Verdade. Dino queria ganhar dinheiro e, como muitos produtores, dava uma no cravo outra na ferradura. Ganhava em porcarias e empregava em coisas boas. Dado o espaço reduzido no jornal (cada vez mais…), preferi destacar o que ele fez de bom. Mas fica o reparo.

Morreu ontem, em Los Angeles, o mitológico produtor italiano Dino de Laurentiis. Dino tinha 91 anos e morava havia muito tempo nos Estados Unidos. É raro que se dedique tanta atenção aos produtores de cinema, vistos em geral como homens de negócios, distanciados da verdadeira arte dos filmes. Dino, no entanto, foi um caso particular porque deixa uma marca muito forte na história do cinema.

Em sua longa carreira, produziu filmes de autores do porte de Roberto Rossellini, Federico Fellini e Mario Monicelli. Nos Estados Unidos, trabalhou com diretores como Sidney Pollack  (Os Três Dias do Condor, 1975) e Michael Cimino (O Ano do Dragão, 1985). Deixa um currículo invejável de mais de 600 filmes produzidos e 59 prêmios internacionais. Só com Fellini recebeu dois Oscars de melhor filme estrangeiro – por A Estrada da Vida (1954) e Noites de Cabíria (1957). Em 2001, ele próprio recebeu um Oscar pela carreira. Ganhou também um Leão de Ouro em Veneza pelo conjunto do seu trabalho.

Dino nasceu Agostino de Laurentiis em 8 de agosto de 1919, em Torre Annunziata, na Campânia, sul da Itália. Fez escola de cinema, trabalhou como extra e ator em filmes pouco memoráveis, serviu ao exército italiano durante a 2ª Guerra e, com a paz, encontrou seu verdadeiro lugar no mundo de cinema – o de produtor. Aquele que agencia financeiramente uma produção, provê a base material da proposta do realizador, doma os projetos mais delirantes do cineasta e, se for grande, viabiliza o sonho sem castrar o artista. Dino fez isto muitas vezes. E de que outra maneira poderia trabalhar com um delirante profissional como Federico Fellini?

Mas antes de chegar a Fellini, de Laurentiis produziu Giuseppe de Sanctis num filme destinado a ficar célebre, Arroz Amargo, nem tanto por sua história de plantadores de arroz, num registro neorrealista tardio e já um pouco adocicado, mas pela atriz que lançava, a extraordinária Silvana Mangano. Dino ficou tão impressionado com o talento da moça, e com suas longas pernas expostas no trabalho de plantio durante as filmagens, que se casou com ela. Tiveram quatro filhos e ficaram juntos até a morte de Silvana, em 1989.

Dino associou-se a Carlo Ponti em 1948 e, juntos, produziram o primeiro filme italiano em cores, tendo o cômico Totò como protagonista.

Deve-se a Dino também um dos filmes de Roberto Rossellini (Onde Está a Liberdade?, 1954) e uma das obras-primas de Mario Monicelli, A Grande Guerra, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza em 1959. Ano passado, o festival italiano comemorou os 50 anos dessa vitória com a cópia restaurada do filme, que foi projetado em praça pública na presença do diretor.

Essa vasta carreira talvez seja mais lembrada pelos dois pontos luminosos deixados na parceria com Fellini. A Estrada da Vida e Noites de Cabíria: em ambos brilha a estrela terna de Giulietta Masina, mulher do diretor, como a prostituta ingênua, explorada por um brutamontes de circo (Anthony Quinn), no primeiro, e vagando nas ruas de Roma em busca do verdadeiro amor, no segundo. Duas obras-primas.

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