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Dieta Mediterrânea, Jules e Jim à espanhola

Luiz Zanin Oricchio

14 de janeiro de 2011 | 13h27

Nos anos 1960, François Truffaut escandalizou os moralistas da época com Jules e Jim, um clássico do cinema sexualmente libertário. Com a aids e o neomoralismo decorrente, o careta século 21 já pode acolher como novidade esta história espanhola de Dieta Mediterrânea, que dialoga com Truffaut.

Os personagens dessa comédia matrimonial são Sofia (Olivia Molina), seu marido Toni (Paco León) e Frank (Alfonso Bassave). Em peripécias ambientadas entre a cama e a cozinha, Sofia é cozinheira de talento, Frank tenta ser seu agente e transformá-la na maior chef do mundo, e o marido é um empreendedor do ramo imobiliário que só deseja fazer a mulher feliz.

Dirigido por Joaquín Oristrell, o filme tem graça e vivacidade. Devidas, em especial, à energia da atriz Olivia Molina, que pode carregar no estereótipo “espanhola fogosa, mandona e alegre” mas, de fato, coloca Dieta Mediterrânea em ponto de bala em seus melhores momentos. Seus partners não comprometem.

Há também outros estereótipos, por exemplo na maneira como tudo é fotografado, fazendo render ao máximo o clichê da “Espanha solar”. Clichês não necessariamente são falsos. Pelo contrário. De modo geral, baseiam-se em fatos reconhecidos por todos como verdadeiros. Tão consensuais que não precisam mais ser demonstrados. E, no limite, não precisariam ser sequer invocados. De tão repetidos, embora verdadeiros, os clichês parecem soar falsos. Por isso, novidade é o que menos vai se encontrar neste tipo de filme.

Porém, nele é possível achar divertimento e, com alguma boa vontade, mesmo alguma emoção. Se o pano de fundo é banal, algumas situações conseguem tocar o espectador. No mais, é apenas a história de uma moça ambiciosa e bem dotada, que deseja fazer carreira e, ao mesmo tempo, não abre mão de sua liberdade sexual, mesmo em ambiente conservador.

A outra vertente temática merece também ser lembrada. Já faz alguns anos, talvez desde A Festa de Babette, que a culinária tornou-se ponto de referência forte para o cinema. São filmes e mais filmes tendo por tema a gastronomia e sua repercussão no imaginário das pessoas. Mesmo no cinema brasileiro recente tivemos um trabalho original como Estômago construído sobre os encantos da arte de comer bem. De modo geral esses filmes relacionam fome e desejo como impulsos básicos. Faz sentido. Sexo e boa comida têm tudo a ver, como aliás comprova o emprego de alguns verbos em linguagem chula.

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