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Diego, Julinho e a ética *

Luiz Zanin Oricchio

05 de novembro de 2013 | 11h08

Amigos, pelos padrões éticos do futebol atual, não vejo qualquer problema em Diego Costa ter escolhido a seleção espanhola e não a brasileira. Diego meditou sobre as duas opções de que dispunha e fez a sua escolha.

Igualzinho a qualquer um de nós quando nos oferecem dois empregos, e decidimos por aquele que julgamos melhor para os nossos interesses. Ou porque a firma é mais bem conceituada, ou porque paga mais, ou fica mais perto da nossa casa ou porque o pessoal de lá é mais simpático. Fazemos um inventário de razões, ponderamos prós e contras e optamos. Foi o que ele fez. O Diego pensou, sondou o caminho que lhe seria mais conveniente tomar na carreira e escolheu. Ponto, parágrafo. E bola pra frente.

Agora, só a título de ilustração, gostaria de rememorar o caso de Julio Botelho, o imortal Julinho, ponta-direita da Portuguesa e do Palmeiras que, um dia, substituindo Garrincha, entrou vaiado na Maracanã e de lá saiu aplaudido. Pois bem, num tempo em que poucos jogadores saíam do Brasil, o Julinho também entendeu que deveria tentar a sorte em outra parte e foi jogar na Itália, onde se tornou ídolo. Sabia que, assim fazendo, renunciava à camisa do time nacional. Havia sido titular na Copa de 1954, mas naquela época quem jogava fora do país não entrava na seleção. Deu-se que a seleção brasileira foi fazer uma excursão preparatória para a Copa do Mundo de 1958 e programou um amistoso contra a Fiorentina, clube de Julinho. Preocupado, o ponta procurou o chefe da delegação brasileira, o Dr. Paulo Machado de Carvalho, e pediu-lhe “permissão para jogar contra a sua pátria.” Licença concedida, Julinho entrou em campo, mas, contam os que viram o jogo, não foi sombra daquele ponta agressivo, veloz e insinuante que fez sua fama. Jogar contra a “pátria” o deixava inibido. Acabrunhado, talvez. Alguns viram lágrimas em seus olhos.

O amigo dirá que eram outros tempos. E dirá bem. Hoje, colegas que comentam o caso do sergipano de Lagarto Diego Costa, têm lembrado que, com a globalização, o conceito de pátria, já antes suspeito, tornou-se obsoleto de vez. Ora, o sentimento evocado pelo exemplo de Julinho já era execrado pelo famoso escritor britânico Samuel Johnson, autor da frase sobre o patriotismo como último refúgio dos patifes, escrita no século 18!

Estou de acordo com tudo isso, mas com direito reservado a algumas considerações. Diz-se que o mundo está globalizado, mas não é bem o que encontramos nas fronteiras, cada vez mais rígidas e controladas. Tente ser um imigrante africano e entrar na Europa. Pergunte a uma moça brasileira se é agradável atravessar a alfândega espanhola ou a inglesa. Ao viajar, você dirá tudo, menos que se encontra num mundo fraterno e de livre circulação humana. O que circula muito bem, e sem qualquer entrave, é o capital especulativo. Este, de fato, dispensa vistos e passaportes. Vai e vem, sem qualquer compromisso com pátrias, nações e outras antiguidades.

Outra coisa: quando você viaja pela Europa vê portugueses, espanhóis, italianos, alemães, e não europeus. A moeda única não anula características nacionais ou antipatias ancestrais. Por outro lado, os nossos patrícios brasileiros, tão cosmopolitas e avessos a demonstrações cívicas, costumam voltar deslumbrados dos Estados Unidos com demonstrações de sentimento patriótico que lá vêem. Fico um tanto confuso com essa duplicidade. Quer dizer que eles podem ser nacionalistas e os invejamos por isso, e, se por acaso o formos, seremos arrastados ao ridículo?

Há mais um detalhe pequeno. Uma Copa do Mundo, por definição um embate esportivo entre nações, tem de se valer de alguma forma de sentimento nacionalista, tanto dos que jogam como dos que torcem. É o seu sal e, ousaria dizer, sua razão de ser. Se as seleções se descaracterizarem, como já aconteceu com os tradicionais clubes europeus, o fascínio pela Copa do Mundo será mantido mesmo assim? Teria graça uma Copa composta de times multinacionais, com jogadores naturalizados a fórceps pela força da grana? Que país, no fundo, esses times representariam? E quem se interessaria por eles?

* Coluna publicada no Esportes do Estadão

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