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Dicas da Mostra depois de uma maratona improvisada

Luiz Zanin Oricchio

01 de novembro de 2009 | 12h04

Ontem fiz aquilo que já havia prometido não mais fazer: vi cinco filmes em seguida, como os melhores maratonistas da Mostra. Cansou. Mas compensou. Todos são recomendáveis. Procurem vê-los, se ainda se repetirem:

Amanhecer Vermelho, de Gianfranco Pannone: bom documentário sobre o nascimento das Brigadas Vermelhas na Itália. O núcleo é uma conversa entre antigos militantes, que contam como se juntaram num aparelho em Reggio, na região da Emilia, tornaram-se dissidentes do Partido Comunista e passaram às ações armadas. Filme de compreensão histórica.

Eu Eu Eu José Lewgoy, de Cláudio Kahns: excelente documentário sobre o ator José Lewgoy, indo de sua experiência internacional e depois nas chanchadas. Filme à altura de um dos mais importantes atores brasileiros, com farto material de arquivo e boa articulação das imagens. O personagem fica à sua altura: grande. Mas não se trata de hagiografia o que é bom tanto para o personagem como para o público.

Dois filmes seguidos de Amos Gitai: Carmel e A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas. Gitai cada vez melhor, a meu ver. Faz da elegância um instrumento para a profundidade, dedicando-se, mais uma vez, a estudar a tragédia do povo judaico à luz da história. No primeiro dos filmes, pondo em cena a sua própria experiência pessoal na Guerra do Yom Kippur. No segundo (filmagem de uma peça que ele mesmo dirigiu, no Festival de Teatro de Avignon), fazendo um relato histórico da guerra dos romanos contra a Judeia, narrada, de forma magnífica, por Jeanne Moreau.

Seguindo em Frente: tive de enfrentar uma lista de espera (como a dos aeroportos) para ver o novo filme de Kore-Eda, no cine Bombril. No fim tive sorte e sentei-me numa cadeira de rodas disponível na sala e não tive de ficar pelo chão como muita gente. Sosseguem: não havia nenhum usuário em potencial para a tal cadeira. Valeu o sacrifício: a singeleza com que Kore-Eda focaliza a moderna família japonesa torna o filme cativante. E emocionante. Um diálogo intenso com o mestre dos mestres japonês – Ozu. O cinema da simplicidade, com a câmera à altura do tatami, humana, revelando que ninguém é banal ou todos o somos. Vistos de perto (e a câmera nos aproxima dos personagens) todos complexos, contraditórios e profundos. Mesmo vivendo nossas vidinhas em aparência insignificantes.

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