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Diários do Japi – Livros formadores

Luiz Zanin Oricchio

09 Março 2007 | 00h18

Chove sobre a Serra do Japi. Assumo (temporariamente) a sugestão do nosso Jakob a respeito dos “Diários do Japi”. Como não sei quanto tempo ainda vou ficar pela serra, também não sei quanto durarão esses “diários”. No sábado pretendo interromper por dois dias minha estada por aqui. Devo ir à Baixada Santista, ao Guarujá e, no domingo, ver o jogo entre Santos e São Paulo na Vila Belmiro. Na segunda, volto para cá e fico pelo menos mais uma semaninha. No sossego.

Pensei muito a respeito dos comentários aos posts sobre leitura. É um tema que interessa e muito a este blog escrito por um crítico de cinema que também acredita na força da palavra. Longe de mim fazer a apologia do intelectual de gabinete, aquele que só conhece o mundo através da leitura. Acredito muito no poder da rua, no contato direto entre as pessoas, na conversa de botequim. Mas, devo admitir, boa parte da minha visão de mundo se deve à leitura de certos livros. Quase ao acaso, sem forçar muito a memória, eis alguns deles:

Na infância, aprendi com Monteiro Lobato como a leitura pode ser prazerosa. Fico às vezes pensando na satisfação que tive ao ler Reinações de Narizinho, O Poço do Visconde, A Chave do Tamanho, livros assim. Lia à noite, escondido, com um abajur coberto por um pano para que minha mãe não percebesse e me mandasse dormir.

Na adolescência forma-se a base de um pensamento romântico, quer dizer, baseado na generosidade. Assim, lendo Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo, pensei no valor do desprendimento. Com Os Miseráveis, pensei na solidariedade. Com o mesmo Erico embarquei na Saga de O Tempo e o Vento e me apaixonei pelo Rio Grande do Sul. E pela política. Formação completada com o Jorge Amado de País do Carnaval, Cacau, Suor, Capitães da Areia. Jorge depois me ensinou a amar a Bahia com Gabriela e Dona Flor e seus Dois Maridos. Aprendizagem completada com Os Velhos Marinheiros.

A descoberta de Machado de Assis foi fundamental. Surpresa e prazer intelectual quando li pela primeira vez Dom Casmurro, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Um amor para toda a vida. Comprei, faz muitos anos, a obra completa de Machado e vivo relendo o nosso maior autor. Leio Machado, em especial quando acho que já aprendi a escrever.

Outra paixão é Graciliano Ramos, que, nesse sentido, só rivaliza em meu coração com Guimarães Rosa e Machado. Tive a mesma impressão ao ler Angústia e Grande Sertão: Veredas. Pasmo total. Como era possível levar a literatura tão longe? Lê-los, me vacinou, para sempre de qualquer complexo de inferioridade. Um país que tem autores desse porte nada fica a dever aos outros. Ponho também, no mesmo patamar, Carlos Drummond e João Cabral de Melo Neto. Drummond foi uma verdadeira fixação de adolescente, quando eu ainda pensava que poderia algum dia escrever versos. Melhor ler versos bons que cometer versos maus.

Uma descoberta de juventude que (acho) mudou minha vida foi Julio Cortazar. Comecei, a conselho de um amigo de faculdade, por O Jogo da Amarelinha, que então acabava de ser traduzido. Fiquei fascinado. E fui lendo tudo, tudo, tudo de Cortazar. Bestiário e Octaedro me deixaram de quatro. Atrás dele vieram Borges, Rulfo, García Márquez. Acho que houve uma fase na minha vida que só lia literatura latino-americana. Mas acho que é impressão: sempre li de tudo e sempre misturando gêneros, autores, ficção e teoria, prosa e poesia.

Há livros que devem esperar uma certa maturidade. Tentei ler A Montanha Mágica, de Thomas Mann, quando era adolescente, mas fiquei entediado. Voltei a ele anos depois e se transformou em um dos livros da minha vida, junto com Doutor Fausto, também de Mann. A mesma coisa se passou com Em Busca do Tempo Perdido, que tentei ler ainda muito moço em tradução de Mário Quintana, que verteu a maioria dos sete volumes de Proust para a antiga edição da Globo. Não agüentei. Já morando na França, comecei a ler no original. Em épocas de lazer, gostava de comparar original e tradução. Proust virou um parceiro para a vida toda. Volta-se a ele, sempre.

E a mesma coisa se pode dizer de Ulisses, de Joyce, que me causou uma funda impressão. Fui lendo aos poucos, na trabalhosa tradução de Antonio Houaiss. Depois, em Paris, li a de Gilbert (se não me engano) e achei mais acessível. Há um ano saiu a tradução de Bernardina Pinheiro e, graças a ela, voltei a Joyce. Ler o Ulisses é um exercício de liberdade mental.

Enfim, poderia escrever horas e horas sobre esses livros formadores. E olhe que tratei só dos de ficção, hein? Felizmente, nenhuma formação está completa e esses livros que mudam a cabeça da gente continuam a aparecer. Por exemplo, li, há uns dois anos, Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato, e fiquei estupefato. Estou agora mesmo lendo, e com muito vagar, um livro que estou adorando, Os Detetives Selvagens, do chileno Roberto Bolaño. Quero terminá-lo para escrever sobre ele. Mas uma coisa já sei: é estupendo, inovador, surpreendente.

Cada um de nós pode montar com facilidade essa lista amorosa de leituras. Escrevi aqui, distraidamente, deitado na cama enquanto a chuva bate lá fora. Devo ter esquecido um monte de livros que fizeram a minha cabeça, com certeza. Mas todos esses que citei são um pouco responsáveis por aquilo que sou. É bom lembrar deles. E os livros de vocês? Estou esperando a lista de cada um, aqui no Japi.