Diário do FAM 2014 – Longa chileno debate “justiça com as próprias mãos”
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Diário do FAM 2014 – Longa chileno debate “justiça com as próprias mãos”

Luiz Zanin Oricchio

25 de maio de 2014 | 12h35

FLORIANÓPOLIS – Cá estou aqui para mais um FAM – Florianópolis Audiovisual Mercosul em sua 18ª edição. É um festival que cumpre papel importante na integração latino-americana. Como se sabe, vivemos de costas para o resto do continente e, eles, de costas para nós. Sentimo-nos mais próximos da Europa e, muito mais, dos Estados Unidos. No cinema, essa forma de alienação é ainda mais perceptível. Por sorte, vários festivais brasileiros – Cine Ceará, Festival Latino-americano de São Paulo, Gramado e, agora, o Cine PE, do Recife, entre outros, têm percebido as vantagens da aproximação cultural com nossos vizinhos. O FAM é um dos pioneiros nessa tentativa de sintonia.

Ontem, no sábado, foi apresentado um dos representantes do Chile, Matar a un Hombre, de Alejandro Fernández Almendras, e já provocou polêmica entre os críticos presentes (gente do Uruguai, Argentina, Bolívia, Brasil e do próprio Chile). Houve quem considerasse a história duvidosa do ponto de vista, digamos, político. Não é minha opinião.

Vejamos. O personagem principal é Jorge, um guarda florestal diabético, que mora num bairro de periferia. Jorge – e sua família – são atormentados por um grupo de desordeiros, por um deles em particular, gente de um conjunto habitacional vizinho. Jorge tenta os caminhos legais para se proteger, mas quando estes se revelam falhos, morosos, burocráticos, ele pensa em, digamos, soluções alternativas. Se é que me entendem.

Essa storyline não faz do longa de Almendras um êmulo banal de Desejo de Matar, o apologista fílmico da “justiça com as próprias mãos”. Pelo contrário. Há todo um cuidado em caracterizar o personagem principal como homem fragilizado, contraditório e com problemas de consciência. O filme põe em foco a questão da violência urbana e de como somos obrigados a lidar com desafios que às vezes dizem respeito à nossa própria sobrevivência. A esquerda tradicional, como se sabe, sempre teve dificuldade a tratar do problema. Como se dissesse: “o nosso foco único é a justiça social, deixamos o discurso da segurança para a direita.” Esse equívoco provocou muita perda de votos e de credibilidade. Afinal, segurança não é uma questão ideológica, mas um direito do cidadão e vazios do Estado tendem a ser preenchidos por aventureiros.

Almendras tem a coragem de tocar nessa questão espinhosa. E também corre o risco de ser mal interpretado por fazê-lo. Cinematograficamente, o filme é muito interessante, despojado, “quase bressoniano”, como lembrou alguém. Refere-se ao francês Robert Bresson, o mestre por excelência do despojamento, tanto nas atuações como nas opções narrativas, com a ausência de tons melodramáticos apelativos, uso parcimonioso, ou ausência completa, da música.

Em seus vários segmentos, o FAM apresentará mais de uma centena de filmes, entre longas documentais e de ficção, e curtas-metragens. Além de mesas-redondas, debates e painéis sobre o audiovisual contemporâneo. Estou aqui para participar de um debate: Desafio da crítica: as novas linguagens do audiovisual.

Vou relatando à medida em que as coisas forem acontecendo.

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