As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário do FAM 2014 – La Paz e a busca da quietude

Luiz Zanin Oricchio

28 de maio de 2014 | 17h00

 

FLORIANÓPOLIS – La Paz é a grande cidade boliviana do altiplano, a maior cidade do país andino. O diretor argentino Santiago Loza usa a associação óbvia do topônimo com o sentimento a que aspira o personagem do seu filme, assim intitulado. Todos queremos paz, mas talvez o jovem Liso a necessite mais do que os outros.

No começo, vemos o rapaz saindo de uma internação psiquiátrica. Não conhecemos direito o motivo que o levou até lá. Sabemos, no entanto, que pertence a uma família rica, da burguesia de Buenos Aires. O pai possui uma indústria, a mãe é uma dondoca de meia idade, conservada em Botox. Eles têm uma casa com piscina e uma empregada boliviana, Sonia. Curiosamente, é a essa moça humilde que o jovem se apega.

La Paz é um filme de silêncios, de muitos espaços em branco na história. Vemos o rapaz tentando, seu sucesso, reatar relacionamentos amorosos anteriores à sua internação. Uma das moças lhe diz: “Mas você tem consciência do que fez comigo, não tem?” Não sabemos do que se trata. E não sabermos não faz falta alguma para imergirmos na história.

O que deseja Liso? Ele não deseja nada. É o que diz à mãe, ao pai, a todos. Só quer paz. E ter um filho. Mas como ter um filho na sua situação?, lhe pergunta o pai, com pouco tato. É só isso. Ele gosta de crianças. E também de sua velha avó, que carrega na motocicletarecebida de presente da mãe. A moto não é seu único brinquedo perigoso. Ficamos surpresos ao ver uma pessoa que fora internada treinando num estante de tiro. Mas não sabemos se sua internação tem algo a ver com violência.

De certa forma, La Paz é uma lição de como se constrói uma narrativa com poucos elementos, sem qualquer necessidade de dizer tudo. Aliás, esse desejo de preencher todos os espaços ficcionais talvez seja um dos principais defeitos dos roteiros brasileiros, e dos filmes de modo geral. Essa vontade de tudo dizer supõe que se algo ficar no ar o espectador não compreenderá ou não gostará da história. O resultado são obras óbvias, que deixam pouco ou nenhum espaço para que o espectador ponha algo de seu na fruição da narrativa. Para que a fábula fale por nós, como preconizavam os antigos (Horácio), é preciso que ela também mantenha pontos de respiro, nos quais possamos projetarmo-nos e imaginarmos que aquilo tudo bem poderia estar acontecendo conosco.

La Paz, tanto por seus personagens como por seu modo de construção, é uma pequena epifania.

Obs. Agora mudo o chip e me mando para Curitiba, para outro festival, O Olhar de Cinema, que começa hoje à noite com apresentação de um clássico, Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick, em cópia restaurada, talvez a grande fábula de humor negro sobre a paranóia militarista.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.