Diário do FAM 2014 – A visão feminina e a sutileza uruguaia
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário do FAM 2014 – A visão feminina e a sutileza uruguaia

Luiz Zanin Oricchio

27 de maio de 2014 | 10h51

 

FLORIANÓPOLIS – Tão Longe É Aqui é o título do documentário de Eliza Capai apresentado ontem no FAM – o Florianópolis Audiovisual Mercosul 2014. Faz uma espécie de síntese de duas vertentes documentais. Por um lado, sai à descoberta de outra realidade – no caso a africana, estranha à diretora e à maior parte de nós; por outro, insere esse ato de conhecimento a uma outra esfera, a da confissão pessoal.

Desse modo, ficamos sabendo que é uma mulher em crise a que sai em viagem, tanto para conhecer outros mundos como para descobrir-se. A voz em off fala do que vê e registra em imagens, mas evoca um relacionamento frustrado e dirige-se a uma filha, real ou sonhada.

E é em busca de uma dimensão específica da realidade africana que sai Eliza Capai – a da condição feminina. Mulher descobrindo mulher. Viajando por Cabo Verde, Marrocos, Mali e África do Sul ela ouve, vê e comenta a experiência feminina nesses países. Que, de modo geral, é experiência de sofrimento, em especial onde se praticam a mutilação genital (eufemisticamente chamada de circuncisão feminina) e a poligamia. No entanto, alguns depoimentos surpreendem por sua lucidez e articulação.

O filme revela o desejo honesto de compreender o Outro, ou melhor, a Outra. Uma dimensão feminina por vezes muito distante da experiência ocidental. Por outro lado, a autorreferência, que não parece narcísica, dá uma dimensão mais aproximada a tudo o que a diretora testemunha. Nao existe distanciamento entre sujeito e objeto. Nao é alguém que observa, de maneira etnocêntrica. Não se trata de um um universo alheio, por mais estranheza que ele possa trazer. No fundo, a humanidade é um todo, em suas diferenças, em sua assimetria, mesmo em suas práticas às vezes incompreensíveis e inaceitáveis, mesmo que culturalmente enraizadas. Bonito filme.

Na mostra de longas ficcionais, tivemos o reencontro com Rincón de Darwin, de Diego Fernández Pujol, que já havíamos visto no Cine Ceará do ano passado. De passagem: rever filme bom é muito enriquecedor. Como já conhecemos o enredo, desfecho e personagens, prestamos mais atenção nos detalhes. Já rever filme ruim parece uma tortura. Talvez pelos mesmos motivos. Isso para dizer que Rincón de Darwin fica ainda melhor ainda quando assistido pela segunda vez.

Trata-se de um interessante road movie construído à maneira uruguaia, isto é, sutil, quase minimalista em sua maneira de ser. São três os personagens que se põem na estrada, a bordo de uma velha camionete caindo aos pedaços. Gaston, um rapaz fascinado por tecnologia que acabou de terminar um noivado. Americo, um contador mais velho, preocupado com o casamento da filha, e o despachado e malandro motorista Beto.

O objetivo da viagem é visitar uma propriedade no interior do Uruguai, herdada por Gaston com a morte do avô. O contador vai com ele para avaliá-la, pois será colocada à venda. E Beto é o chofer, um transgressor que colocará pimenta no universo desencantado de Americo e no desesperançado de Gaston. Deve-se dizer também que Beto é uma figura pícara, no âmbito da grande tradição espanhola do gênero, que nos legou, por exemplo, o Lazarillo de Tormes. Quer levar vantagem em tudo, mas não é má pessoa. Ao fundo do trajeto, ouve-se por vezes a narração (em inglês) de passagens do diário de Charles Darwin em sua viagem que redundou em A Origem das Espécies, o tratado sobre a teoria da evolução. O local onde se situa a propriedade de Gaston chama-se Rincón de Darwin porque o biólogo passou por ali e colheu informações para a construção da sua teoria.

O filme, como outros da leva minimalista uruguaia, joga no espaço do campo reservado à sutileza e não entrega tudo de bandeja ao espectador. Se muita coisa se expõe à luz, outro tanto permanece na sombra, o que é uma forma de respeito ao espectador. O implícito joga um papel importante no processo de formação de sentido pela plateia, o que é quase sistematicamente ignorado pelos cineastas brasileiros.

Como toda viagem arquetípica esta também é transformadora, mas dentro das limitações humanas. Não se trata tanto de mudar radicalmente a natureza de três pessoas por aquilo que passaram juntas na estrada durante dois ou três dias. Mas, quando experiências, mesmo que pequenas, são assimiladas, elas permitem, talvez, um certo deslocamento de perspectiva na assimilação do mundo. É o que, modestamente, nos oferece Rincón de Darwin, mais um pequeno grande filme vindo do nosso vizinho do Sul, o país em que talvez se escrevam os melhores diálogos da cinematografia latino-americana. Deve ter algo a ver com o hábito de leitura do seu povo.

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: