Diário do É Tudo Verdade 2013 Paulo Moura e a alma brasileira
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Diário do É Tudo Verdade 2013 Paulo Moura e a alma brasileira

Luiz Zanin Oricchio

04 de abril de 2013 | 14h14

 

O 18º É Tudo Verdade começa hoje com o belíssimo Paulo Moura – Alma Brasileira, de Eduardo Escorel.

Esse é um daqueles filmes que se distinguem, junto com Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos, da enxurrada de documentários musicais brasileiros.

Um parêntese: nada contra essa documentação intensiva da música brasileira. Se existe manifestação artística em plena maioridade entre nós é a música, sem dúvida. A literatura apega-se aos grandes nomes do passado e mostra dificuldade ao lidar com o presente. O cinema sofre de um preconceito cruel e precisa ser protegido para não perecer.

A música não. Afirma-se por si só no gosto do público. E, se existem as aberrações (neo-sertanejos, etc), a música de boa qualidade também sobrevive, e sem pedir licença a ninguém. Desse modo, deve ganhar as telas do cinema, com seus personagens, suas obras, sua diversidade surpreedente. Não se justifica, porém, que o cinema aborde essa manifestação artística de forma tão previsível. Salvo raras exceções, os docs musicais, como cinema, são muito piores que a música que elegem por tema. Fechar parêntese.

Isso não acontece com Paulo Moura que, no entanto, como diz em voz over o próprio diretor, por pouco não deixou de ser realizado. Isso porque, logo que o trabalho começou, o músico adoeceu (veio a morrer em seguida) e tudo o que havia sido planejado teve de ser revisto.

Escorel apegou-se então às imagens gravadas de Paulo Moura, imagens raras e pouco ou nada vistas. Como por exemplo, sobras de entrevistas que ele concedeu para o longa Brasileirinho, do finlandês Mika Kaurismaki. Ou cenas esparsas das muitas turnês realizadas por países como França, Japão, Israel e muitos outros. A ideia, parece, era compreender o músico em alguns momentos informais, como na espera para a rodagem de Brasileirinho, tempo “morto” que foi devidamente registrada.

Claro, no caso, a música é o fundamental. Nesse sentido, o documentarista conclui que colocar palavras sobre a música talvez não seja a estratégia mais indicada para compreendê-la. (Afinal, como dizia Hegel, a música é a mais abstrata das artes). Deixá-la fluir, é dar à música o seu espaço para ser ouvida e sentida, sem comentários explicativos que, por elaborados que sejam, tendem, no espaço dinâmico do cinema, a empobrecê-la.

A exceção é feita à viúva de Paulo Moura, Halina Grynberg, que intervém de maneira discreta. Seu rosto sequer é mostrado; só se veem as mãos e se ouve a voz, enquanto comenta imagens do marido buscadas numa caixa de fotografias, que são, como se sabe, máquinas do tempo, artefatos para evocar a memória.

É deixado, na montagem, um deliberado espaço para o lacunar, para aquilo que não é dito. Há muito o melhor cinema documentário renunciou à volúpia de dizer tudo, ou pelo menos o máximo possível, sobre seu personagem. Sabe que espaços em branco, vazios, são importantes para a respiração do espectador, para o pensamento enfim. Na música também é assim. Som e silêncio em contraste.

Em Nelson Freire, por exemplo, João Moreira Salles usa a conhecida timidez do pianista para traçar-lhe um perfil inusitado. Em Tom Jobim, Nelson Pereira radicaliza e limita-se à música. E é justamente essa “limitação” criativa que lhe permite vislumbrar o universo sonoro de Tom Jobim.

“Sobra”, então, a música. Extraordinária. Tanto que merece ser enumerada: Brasileirinho, de Waldir Azevedo; Valsa Triste, de Radamés Gnatali, Alma Brasileira, de Zeca Freitas, Outubro, de Milton Nascimento e Fernando Brandt; A Matança do Porco, de Wagner Tiso, Fantasia para Sax Soprano e Orquestra, de Heitor Villa-Lobos, Soluços, de Pixinguinha e Benedito Lacerda, Oi, Compadre, de Martinho da Vila, Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antonio Maria, Antiga, de Toninho Horta e Ronaldo Bastos; Espinha de Bacalhau, de Severino Araújo, Concerto para Clarineta e Orquestra em Lá Maior K. 622, de Mozart, É do que Há, de Luiz Americano, Saxofone por que Choras, de Ratinho; Guadeloupe, de Paulo Moura, Falando de Amor, de Tom Jobim,; Mistura e Manda, de Nelson Alves, Samba de Luanda, de Rui Quaresma e Nei Lopes, Nega Buliçosa, de Thiago Duarte; Folia Nordestina, de Paulo Moura e Alex Meirelles; Só Louco, de Dorival Caymmi; Na Contramão, de Paulo Moura; Doce de Coco, de Jacob do Bandolim; Mulatas e tal, de Paulo Moura.

Há as peças de desafio técnico impressionante como a Fantasia para Sax Soprano, de Villa, e Espinha de Bacalhau, de Severino Araújo. Claro que Paulo Moura não se atrapalha com as várias pedras espalhadas ao longo da partitura. Toca como se fossem simples. Espinha de Bacalhau não tem esse nome à toa. Se o músico não se cuida, pode se engasgar com as notas. E é daqueles engasgos que não podem ser consertados; obrigam o cidadão a parar e recolher-se à sua vergonha.

E há também as peças, de pura expressão, como Manhã de Carnaval, ou Doce de Coco, de Jacob – um dos mais lindos choros de todos os tempos.

Aliás, dois dias antes de morrer, na Clínica São Vicente, Paulo Moura escolheu essa peça para um sarau de despedida com os amigos. Vi um trecho desse sarau. Enfraquecido, Moura é uma sombra do músico que conhecemos. É uma cena comovente. Mas há quem a considere constrangedora. Tanto assim que Eduardo Escorel não recebeu autorização de colocá-la no filme. Ele comenta o fato, abrindo uma janela preta na tela. A ausência de imagem serve para lamentar a ausência desta e de outras cenas que não pode usar. Ou pelo pudor de amigos e parentes ou pela ganância de quem não se impressiona com arte ou homenagens a artistas. Assim é o Brasil hoje em dia. Ou parte dele, pelo menos.

Paulo Moura – Alma Brasileira se expressa por música – e da melhor qualidade, através de um artista genial que não via barreiras entre o erudito e o popular. Mas fala sutilmente dessa “alma brasileira”, um estado de espírito que se encontrava em Paulo e em muitos outros e que hoje está em processo acelerado de dissolução.

 

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