Diário do É Tudo Verdade 2013 Miscelânea
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Diário do É Tudo Verdade 2013 Miscelânea

Luiz Zanin Oricchio

13 de abril de 2013 | 17h35

Fale a verdade: que “belo” diário esse, hein? Coloquei um post inicial e sumi no mundo.

Há explicação: fazia tempo que um retorno de férias não era tão caótico quanto este, por razões que prefiro esquecer. Para agravar, uma daquelas gripes federais, que te reduzem à ínfima condição de ser febril, com dor de cabeça, garganta inflamada e quociente intelectual de um fundo de alcachofra. Bem, já está passando.

Enquanto isso, para dizer a verdade, mesmo sem condições técnicas, eu me instalei no festival e vi um monte de filmes. Faço agora um jogo rápido sobre eles.

Nosso Nixon, de Penny Lane. Interessante bastidor do governo Nixon, através das filmagens em Super-8 de assessores. Algumas cenas preciosas: a minha favorita quando da apresentação da orquestra de Ray Coniff, para Nixon, uma das cantoras tira uma faixa de protesto contra a Guerra do Vietnã e pede ao presidente que pare de bombardear as pessoas.

Nascido na URSS. Uma ótima ideia, 20 crianças escolhidas em 1991, ano final do império soviético e filmadas a cada sete anos. Muita coisa interessante, e reveladora, mas, por fim, o filme torna-se dispersivo e não justifica suas quase 4 horas de duração.

Antártica, de Evaldo Mocarzel. O diretor faz um trabalho sensorial sobre o continente gelado, ao acompanhar uma expedição científica. Muito bonito. Teve gente que sentiu falta de informações, mas essa, claro, não era a intenção do diretor.

Em Busca de Iara, de Flávio Frederico e Mariana Pamplona. Iara Iavelberg foi uma figura simbólica da luta armada. Linda e ousada, uniu-se ao Capitão Lamarca e partiu para a guerrilha. Foi morta em 1971. Segundo a versão oficial, suicidou-se quando se viu cercada pela repressão, em Salvador. O filme procura desmentir essa versão, defendendo que Iara foi executada. Gostei, mas acho que falta uma imersão maior no clima da época.

Ozualdo Candeias e o Cinema, de Eugênio Puppo. Um belo resgate da obra de Candeias, nome maior do cinema dito marginal. Puppo, “analisa” quase filme a filme do diretor, passando por seus maiores títulos, como A Margem, A Herança, etc. Nesse tipo de filme acho que falta um pouco de distanciamento crítico, de análise de obra mesmo. É uma homenagem válida, mas sinto falta de uma problematização maior. Não me venham dizer que tudo que Candeias fez foi obra de gênio.

Serra Pelada – a Lenda da Montanha de Ouro, de Victor Lopes. Muito bem pesquisado, esse doc sobre o apogeu e declínio do grande Eldorado brasileiro, que também foi uma máquina de comer homens e mulheres. As ligações do garimpo com o projeto de “Brasil Grande” da era militar estão lá. Fica um pouco dispersivo depois, mas é um documentário muito informativo que, inclusive, dá voz a personagens controversos como Sebastião Curió. Muito interessante.

O Universo Graciliano, de Sylvio Back. Não há imagens de Graciliano neste doc sobre o autor de Angústia e São Bernardo. São entrevistas, que Sylvio grava em super closes, de colegas e amigos do escritor, como Ledo Ivo, mas também de pessoas menos conhecidas que com ele conviveram. Multifacetado, cria um retrato em mosaico da personalidade do escritor. Sylvio, como se sabe, prepara uma adaptação de Angústia. Este doc é como um trabalho prévio, uma preparação de terreno para o filme de ficção. Ganha vida própria.

O Pai do Gol, de Luiz Ferraz (curta). Neste filme, Ferraz perfila do grande José Silvério, um dos maiores narradores esportivos que o rádio já teve. Mineiro de Lavras, Silvério tornou-se uma das vozes mais conhecidas do mundo do futebol. Ele conta um pouco do seu método de trabalho e de sua trajetória. Muito simpático.

Fanny, Alexander e Eu, de Stig Björkman. Fiquei um tanto decepcionado com este doc. Esperava uma imersão maior em Fanny e Alexander, obra de despedida de Bergman no cinema, mas o filme centra-se muito nos bastidores da peça de teatro. Acaba cansando.

O Fim do Esquecimento e Em Nome da Segurança Nacional, de Renato Tapajós. Foi a sessão mais cívica do festival. No bom sentido. Resgatando a época da ditadura e os caminhos difíceis para a redemocratização, Tapajós recebeu vários minutos de aplauso na emocionante sessão no Cine Livraria Cultura 1, no Conjunto Nacional. Cenas muito tocantes, inclusive as imagens do senador Teotônio Vilela presidindo um júri que punha no banco dos réus…a Lei de Segurança Nacional. Hoje vamos esquecendo um pouco as coisas. Mas fomos às vezes muito criativos no trabalho de enterrar a ditadura.

Os Guardiães, de Dror Moreh. Achei o melhor de todos os que vi. Seis ex-dirigentes da Shin Bet, agência de Inteligência e Contraterrorismo de Israel, discutem sua atuação. Às claras, falam de assassinatos, tortura e dilemas morais. Um mergulho na vida como ela é e não como achamos que deveria ser. Dizem que o primeiro ministro de Israel recusou-se a ver o filme.

Palme, de Kristina Lindstron e Maud Nycander. Me pareceu um bom doc sobre o líder do Partido Social Democrata sueco e duas vezes primeiro-ministro daquele país. Lembra muito o que achávamos da Suécia, aquele país libertário e desenvolvido, habitado por deusas nórdicas que não faziam muito mimimi para tirar a roupa. Dois momentos de Palme: o constrangimento com a prisão de Ingmar Bergman, de quem era amigo pessoal, por problemas com o fisco; as opiniões francas contra a Guerra do Vietnã e o apartheid sul-africano, que lhe causaram muitos problemas. Seu assassinato não está esclarecido até hoje.

Philip Roth, sem Complexos, de William Karel e Lívia Marena. Uma entrevista bastante franca com o profundo e bem-humorado Roth. Fala da arte da escrita, do sexo, da morte, sem qualquer reservas. O humor judaico o protege. E também o ilumina.

Quarto 237, de Roy Ascher. Um dos filmes mais disputados do festival, fala de interpretações possíveis de O Iluminado, de Stanley Kubrick. Um típico exemplo de super interpretações, buscando sentidos místicos e paranornais nas opções de filmagem do genial diretor. Tem passagens boas porque, como se sabe, os paranoicos, em sua busca por detalhes comprovatórios de suas teses, às vezes enxergam coisas invisíveis aos humanos comuns. Os paranoicos veem muito bem os filmes.

Os Capitães, de William Shatner. Sim, ele, William Shatner, o primeiro capitão Kirk da série Jornada das Estrelas entrevista os cinco atores que o sucederam no papel. Convive também com outros atores e atrizes da série. Uma imersão interessante no bastidor do star system, dos seriados, da fama e da inevitável retirada.

O Fantasma de Valentino, de Michael Singh. Um dos filmes conceitualmente mais densos da seleção. Revela todo o processo de satanização do mundo islâmico na mídia e em Hollywood. Processo, claro que, por inércia imitativa, se multiplica mundo afora. O título se refere a Rodolfo Valentino, em seus papéis de xeique romântico, quando o mundo islâmico não era visto ainda como ameaça, mas como território conquistado e servil ao Ocidente. A discussão do problema é brilhante. Todo jornalista deveria vê-lo. Aliás, todo mundo que ainda tenha interessa pela política planetária.

E foi isso. Apenas para dizer que o É Tudo Verdade deste ano trouxe uma magnífica retrospectiva de Dziga Vertov, o que bem ilustra a sua pegada política. Esse é um festival que tem curadoria, o que faz toda a diferença deste mundo. Volto ao tema.

 

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