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Diário do Cine PE 2014: Notícias, Getúlio e viagens

Luiz Zanin Oricchio

28 de abril de 2014 | 10h13

RECIFE – Apenas umas trinta almas restavam na sala do Guararapes quando, às 23h40, começou a projeção do último filme da noite, o documentário português 1960, de Rodrigo Areias. Era o fim de uma maratona que havia começado às 19h e o público remanescente era composto quase exclusivamente por jornalistas, jurados e críticos que, por dever de ofício, são obrigados a ficar até o fim. O público normal já havia se mandado para casa, para descansar e enfrentar a segunda-feira brava que vinha pela frente. A organização do festival já está estudando nova data de projeção para que as pessoas possam ver o filme.

Bonito filme, aliás, que revisita a viagem feita pelo arquiteto Fernando Távora em 1960 – daí o título. De âmbito memorialístico, viaja por vários países e continentes, Brasil inclusive, escolhendo a cidade de São Paulo, e detendo-se, no final, na obra arquitetônica do seu ídolo, Frank Lloyd Wright, no estado de Wisconsin, Estados Unidos. Imagens em super-8, que sempre dão a impressão da pátina do tempo, concomitantes a um registro irônico e mesmo ferino, que tenta descaracterizar a viagem como mero turismo. Viagem como descoberta dos outros e de si, como laboratório da vida.

1960 havia sido precedido por dois curtas – Frascos, de Ariana Nuala, e Ecce Homo, de Clodoaldo Lino – e dois longas, O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado, e Getúlio, de João Jardim, este fora de concurso.

Já havia visto os dois longas, e revê-los não foi perda de tempo. Ao contrário. Getúlio, cujo personagem-título é vivido por Tony Ramos, reafirmou-se, na minha percepção, como um raro drama histórico sólido brasileiro. A tendência local é glorificar ou vilanizar personagens e, ao mesmo tempo, encontrar um tom didático que facilite a compreensão de um suposto público ignorante. Getúlio dribla todas essas falsas direções. Dá ao processo histórico, que culmina com o suicídio, sua espessura devida e mostra personagens com seus merecidos matizes. Voltaremos ao filme, que estreia neste 1º de março.

Já O Mercado de Notícias é uma brilhante reflexão sobre o poder da mídia contemporânea. Como se sabe, a mídia reflete sobre tudo, menos sobre si mesma. Pois bem, com este documentário, vê-se obrigada a se enfrentar. O filme entremeia entrevistas com alguns jornalistas muito conhecidos (Mino Carta, José Roberto Toledo, Luis Nassif, Renata Lo Prete, etc) e trechos de uma peça de Ben Jonson, da época elizabetana. Questões básicas dos impasses da mídia são debatidos: relação com as fontes, credibilidade, a busca da verdade, a politização da notícia, a espetacularizacão do noticiário, o desafio da internet. Temas indigestos, que ganham destaque no estudo de dois casos: a cobertura do atentado ao então candidato José Serra que foi submetido a uma tomografia depois de levar uma bolinha de papel na cabeça. E a “denúncia”de que existiria um precioso quadro de Picasso exposto em condições inadequadas nas dependências do INSS – na verdade, trata-se de uma cópia barata, dessas que se podem comprar nos museus por 10 dólares (o original encontra-se no Guggenheim, de Nova York). E, no entanto, tornou-se objeto de reportagens indignadas com a malversação de um bem público.

Por certo o filme vai incomodar muita gente. E é ótimo que assim seja.

Os curtas. Frascos, de Araiana Nuala, joga, de forma lúdica, com as noções de conteúdo e continente. É legal.  Ecce Homo, de Clodoaldo Lima, tenta ser criativo em sua denúncia de crueldade com animais. As cenas são chocantes. Todas de matadouro o são. Fôssemos pensar muito nisso e nunca mais comeríamos uma picanha.

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