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Diário do Cine PE 2014 – A metafísica da doença

Luiz Zanin Oricchio

29 de abril de 2014 | 10h50

 

RECIFE – Um filme de título estranho – E Agora? Lembra-me – com 2h46 de duração, falando basicamente da luta de um homem por sua saúde, portador dos vírus HIV e da Hepatite C, não parece tão atraente assim, não é? No entanto, o digamos assim, autodocumentário de Joaquim Pinto, é, até agora a obra mais fascinante do festival. Encantou a pequena plateia que o acompanhou e surge como favorita ao prêmio.

Isso porque Joaquim Pinto transforma sua luta pessoal pela saúde numa empolgante, inteligente e exigente reflexão sobre si mesmo, o mundo, a natureza, o amor, a morte. O filme é uma viagem. Embarca-se nela, ou não. Mas quem comprou o bilhete dessa viagem sem volta e aceitou o desafio proposto saiu recompensado.

Do ponto de vista conceitual, é interessante notar como o diretor reconstrói sua experiência exatamente a partir de sua doença. A doença como forma de conhecimento – eis aí um tema nietzschiano, há muito abandonado, mesmo porque a nossa cultura contemporânea valoriza a saúde acima de tudo e trata a luta contra a doença como se o paciente estivesse num ringue de boxe e o importante fosse não abandonar o combate. Algo meio épico e nada reflexivo.

Em E Agora? Lembra-me o que se tem é algo em essência diferente. A partir do corpo em sofrimento, o cineasta abre uma janela de compreensão para o sentido de tudo. Realiza, por assim dizer, uma metafísica da doença, como se a desordem do organismo invadido oferecesse uma estranha e paradoxal chance de olhar com mais clareza para o universo.

O outro documentário apresentado, de Pernambuco, é muito mais convencional. Corbiniano, de Cezar Maia, tem o mérito de apresentar ao espectador um artista plástico cujas obras estão espalhadas pelas ruas e praças de várias cidades do país, mas em especial no Recife. Corbiniano é artista de talento, com a leveza das formas femininas de suas obras, e homem de poucas palavras. Em compensação, o filme traz muitos depoimentos sobre o artista e o mostra em ação, produzindo em seu ateliê.

O único curta da noite foi o pernambucano Tubarão, de Leo Tabosa, que eu já havia visto em um dos inúmeros festivais que frequentei ano passado. Talvez no Aruanda, da Paraíba, mas pode ter sido em outro. Revisto, reafirma sua qualidade e sentido de inovação. Falado em inglês, é o depoimento de um norte-americano de meia idade, que veio morar há muitos anos no Brasil e perdeu seu companheiro em uma situação trágica. É intenso, original, trabalha muito com o sentido da imagem, embora referenciado sempre à fala do personagem. Documentário ou ficção? – se é que a distinção ainda faz algum sentido.

Não chegamos ainda à metade do festival, mas um minibalanço já se impõe: 1) O nível estético da competição de longas aumentou em relação aos anos passados; 2) a safra pernambucana, pelo menos a que veio ao festival, decepciona; 3) apelidado de “Maracanã dos festivais”, o Cine PE enfrenta problemas de público. Teve casa cheia na abertura. No segundo dia havia bom público, que compreensivelmente depois debandou devido à programação massacrante; no terceiro, o público desertou – ontem havia talvez umas 100 ou 150 pessoas no Guararapes. Talvez um pouco mais. Numa sala que comporta 2400, a sensação é de vazio absoluto. Algo ocorre. Ou será que melhora daqui para a frente? Vamos conferir.

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