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Diário do Cine Ceará 2013 – Mercedes Sosa, cantai por nós

Luiz Zanin Oricchio

14 Setembro 2013 | 10h01

 
FORTALEZA – Mercedes Sosa, a Voz da América Latina, de Rodrigo H. Vila, foi o filme mais aplaudido de todo o Cine Ceará. Sugere que a intérprete de Gracias a La Vida e Volver a los 17 continua muito viva na imaginação das pessoas. Mesmo daquelas que talvez nem nascidas fossem no tempo em que ela era uma voz que cantava os oprimidos do continente castigado por ditaduras militares. Mercedes nasceu em 1935 e morreu em 2009. O seu auge foi nos 1970 e 1980.

O documentário tem corte tradicional. Trabalha com imagens que a cantora deixou em vida, que, graças à sua fama, não foram poucas. Incontáveis registros de apresentações ao vivo e entrevistas concedidas à TV formam um acervo gigantesco, impondo difíceis opções de seleção. Além disso, há os depoimentos de gente famosa que com ela conviveu ou, em determinado momento, dividiu palco com ela – casos do cubano Pablito Milanés, do argentino Fito Páez, dos brasileiros Chico Buarque e Milton Nascimento. Os mestre de cerimônias, que conduz o filme, é o filho de Mercedes, Fabián. Dois parentes participam bastante – os irmãos de Mercedes, que permanecem em Tucumán, terra natal da cantora.

Esse é um dos pontos controversos do documentário. Argumenta-se que deixar ao filho Fabián a responsabilidade das perguntas aos depoentes talvez não tenha sido a melhor opção. Cria-se um tom de afeto e familiaridade que, excessivos, nem sempre beneficiam a lucidez de quem fala. Rodrigo assume inteira responsabilidade pelo fato: “Fabián não queria; fui eu quem insisti para que ele conduzisse as entrevistas”.

No todo, o que há de mais empolgante mesmo é a história que se desenha, uma típica saga latino-americana de superação. Da infância miserável e famélica à fama conseguida graças à sua voz intensa. As dificuldades na era da ditadura militar e o exílio em Paris. Por fim, a volta, em 1982, ainda sob os militares, num show antológico que prenuncia o fim do regime. Depois a doença, o declínio e um momento de magia, quando, ainda recuperando-se da doença, consegue fazer um dueto com Pablo Milanés da canção Años, e leva o teatro inteiro ao pranto. Há imagens dessa noite histórica. Ainda muito doente, Mercedes vai a um show do amigo Pablito no Luna Park. Do palco, ele a homenageia e pede que lhe passem um microfone. Da garganta da senhora alquebrada e obesa brota aquela voz maravilhosa, que todos conhecem. Ela esquece a letra e o público a ajuda. É um momento preparado pelos deuses da música.

Alguns episódios menos gloriosos são abordados. Por exemplo , quando Mercedes confessa o pânico diante do público, a voz que parece lhe fugir quando enfrenta as plateias. Um psicanalistas famoso – Juan David Nasio, tenta interpretar: “Conhecida por todos, ela era totalmente só diante de si mesmo. Era atacada por um pânico que quase a impedia de cantar. Depois vêm as enfermidades graves, descritas por ela mesma, que a impediam de comer. Diz que passou 15 dias praticamente em jejum. E, por fim, a solidão, já descrita pelo psicanalista. “Sei que minha voz ajudou muita gente, mas não ajudou a mim”, diz ela, desalentada.

Há também outros momentos magníficos, e inéditos. Por exemplo, quando Mercedes canta um tango acompanhada de ninguém menos que Astor Piazzola, numa reunião no apartamento de sua amiga íntima Jacqueline Fons, durante seu exílio em Paris.

Rodrigo Vila defende que não fez uma hagiografia, ao mostrar momentos de glória ao lado de outros, de fragilidade. “Compus uma imagem em carne e osso e não de uma deusa”, diz. “Tanto assim que o filme causou surpresa na Argentina, onde ela é vista como um ser perfeito, sempre ocupando um pedestal.”

É a segunda vez que Rodrigo trata do universo de Mercedes Sosa. Antes, havia feito Cantora, um Viaje Íntimo (2009) sobre os bastidores do último disco gravado por Mercedes. “Muito difícil de fazer porque ela não tolerava câmeras no camarim e nos criava todas as dificuldades. Mas depois se acostumou a nós, e, quando um dia não fomos, perguntou: ‘Cadê os chicos das câmeras?'”

Pode-se esperar uma trilogia? “Agora eu diria que não, que, para mim o assunto está esgotado, mas, você sabe, Mercedes Sosa é todo um universo, então não fecho as portas”, diz Rodrigo.

De fato, melhor deixá-las abertas: a trajetória de Mercedes, como de Violeta Parra, se confunde com toda uma história de lutas do continente. Vão além do musical. Elas, como Elis Regina aqui, além de Chico Buarque, Milton Nascimento e outros, funcionavam como vozes, ou menor, porta-vozes de angústias coletivas e de anseios sociais. Os tempos mudaram. As ideologias, se diz, entraram em recesso. O artista delegado de um povo não é mais figura corrente. Diluiu-se nas margens do mercado. Mercedes Sosa é um caso único, em que o significado de sua arte era maior do que o da própria arte, em si. Ela não cantava para nós; cantava por nós.