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Diário do Cine Ceará 2013 – filme basco Emak Bakia vence o festival

Luiz Zanin Oricchio

15 Setembro 2013 | 14h36

 

FORTALEZA – O sofisticado Emak Bakia, do basco Oskar Alegria, foi o grande vencedor do 23 Cine Ceará. Além do troféu Mucuripe de melhor filme, levou os prêmios de melhor som e também o troféu da crítica. O filme mostra a busca por uma casa citada em obra de Man Ray, nos anos 20. Emak Bakia, em basco, significa apenas “Deixe-me em paz”. Através de um processo associativo, próprio do surrealismo (e da psicanálise), Alegria investiga o que se esconde por trás das palavras e das imagens. Talvez mais palavras e mais imagens, mas a obra é um elogio da busca e da aventura intelectual.

O segundo mais bem votado foi o brasileiro Se Deus Vier que Venha Armado, com os prêmios de direção (Luis Dantas), fotografia (Hélcio Alemão Nagamine e ator (Ariclenes Barroso). É um filme ambientado em São Paulo por ocasião do segundo ataque do PCC e monta sua história sobre figuras variadas – um egresso do sistema carcerário em liberdade para o fim de semana; um menino de periferia, manco de uma perna e apaixonado; uma garota de classe média que dá aulas em bairros carentes e um policial truculento, que só pensa em vingar seus camaradas mortos.

O delicado Rincón de Darwin ficou com os troféus de roteiro e direção de arte. É mais um exemplar do cinema sutil, minimalista e levemente melancólico que vem sendo produzido naquele país.

O outrora muito forte cinema cubano se fez representar por O Filme de Ana, que rendeu o troféu de melhor atriz a Laura de la Uz. A trama é muito engenhosa, pelo menos até seu desfecho. Fala de uma atriz frustrada que percebe sua chance com a chegada de uma equipe alemã que deseja fazer um documentário sobre a prostituição em Havana. Ana resolve passar-se por “ginetera”e a interpreta de maneira tão convincente que os alemães ficam encantados. Resolvem até passar-lhe a câmera para que documente o seu meio ambiente em toda intimidade. Nessa engenhosa oscilação entre ficção e realidade, entre o fingir e o ser realmente, o diretor Daniel Diaz Torres consegue manter o interesse até quase o final. Então, um desfecho inconvincente tira pontos desse filme de outra forma bastante interessante e significativo sobre a realidade atual em Cuba.

O poderoso documentário mexicano O Paciente Interno, com seu personagem egresso do massacre da Praça de Tlatelolco, ficou com o Prêmio Especial do Júri. Olho Nu, de Joel Pizzini recebeu o troféu de melhor trilha sonora original, dado a Ney Matogrosso. O cantor estava em Fortaleza e subiu ao palco para receber seu troféu, provocando um certo delírio no cinema.

Numa premiação em que imperou o distributivismo, o único concorrente que saiu de mãos abanando foi o excêntrico Solidões, do cantor e agora cineasta Oswaldo Montenegro. Se, como se diz, o estilo é o homem, pode-se dizer que esse destrambelhado ensaio poético, documental, existencial, filosófico-metafísico sobre a solidão contemporânea tem tudo a ver com a estética musical do agora diretor. Em seu favor conta o espírito democrático com que ouve as críticas e a devida percepção da proporção das coisas: “Devemos aplaudir quem inventou a penicilina ou Beethoven, que fez nove sinfonias. Nós fazemos quatro ou cinco canções e nos achamos no topo do mundo”. É isso mesmo, só que nem por isso o filme melhora. Sua seleção foi o grande vacilo na curadoria do Cine Ceará.

Que, em seu todo acertou. Está difícil mesmo conseguir filme brasileiro inédito, disputado pelos festivais nos quatro cantos do País. De modo que impõe-se uma certa tolerância. Quanto à parte ibero-americana, foi, como tem sido hábito, mais consiste. Afora o maravilhoso filme vencedor, um ensaio poético este sim dotado de estrutura e consistência, os outros deixaram boa marca nesta edição. Casos do uruguaio Rincón de Darwin e do mexicano O Paciente Interno. Mesmo o mais convencional Mercedes Sosa serviu para mostrar o quanto está viva a cantora argentina na memória coletiva. E o cubano O Filme de Ana, apesar da fragilidade final, serviu para recordar como já foi inventivo o cinema da Ilha, com sua crítica sutil ao sistema, a permanente dúvida dos cidadãos entre ficar e emigrar, e os recursos à metalinguagem como forma de reflexão sobre o cinema, e também sobre a vida.

Tudo somado, com seus debates, seminários e mostras paralelas, tivemos um belo festival em Fortaleza. A casa nova, nas salas do Dragão do Mar, conferiram ao público um grau de conforto que não tinham em edições anteriores. Isso também é importante.

 

 

Premiação

Emak Bakia – melhor filme, de Oskar Alegria, som (Abel Hernández), Prêmio da crítica

Se Deus Vier que Venha Armado – direção (Luis Dantas), fotografia (Helcio Alemão Nagamine), ator (Ariclenes Barroso)

O Filme de Ana – atriz (Laura de la Uz)

Rincón de Darwin – roteiro (Diego Fernándes Pujol), direção de arte (Gonzalo Delgado)

O Paciente Interno – Prêmio Especial do Júri

Mercedes Sosa – A Voz da América Latina – edição (Luciano Origlio)

Olho Nu – trilha sonora original (Ney Matogrosso)

 

Curtas

Jessy, de Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge – melhor filme
Sanã, de Marcos Pimentel – direção, Prêmio da crítica, Prêmio Canal Brasil
O que Lembro, Tenho, de Raphael Barbosa – roteiro