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Diário do Cine Ceará 2012: últimos filmes

Luiz Zanin Oricchio

08 de junho de 2012 | 11h04

Com a apresentação de Em Nome da Filha, da equatoriana Tania Hermida, e Bertsolari, do basco Asier Altuna, completa-se o quadro dos longas participantes do 22.º Cine Ceará, que entrega seus troféus Mucuripe hoje à noite no Theatro José de Alencar. O último concorrente, programado para ontem à noite, o brasileiro Febre do Rato, de Claudio Assis, já é bem conhecido por ter vencido (no ano passado!) o Festival de Paulínia.

Como os jurados não têm nada a ver com esse erro de seleção de um filme já consagrado em outro evento similar, é bem possível que Febre do Rato saia com boa premiação em Fortaleza. A estupenda foto em preto e branco de Walter Carvalho deve impressionar e, talvez, o tom libertário do filme (um tanto démodé, à la anos 70) provoque impacto. Pode também indicar que esse veio explorado pelo diretor de forma progressiva (vide os anteriores Amarelo Manga e Baixio das Bestas) esteja esgotado ou próximo disso.

Bertsolari e Em Nome da Filha, os dois últimos inéditos apresentados são bons filmes, curiosos, embora nada estupendos. Bertsolari é o nome que se dá aos repentistas bascos, uma instituição no país, forma de afirmação da cultura e da língua euskara. De grande beleza visual, introduz o espectador ao universo desses cantadores tradicionais, que participam de torneios badalados como jogos do Athletic Bilbao. Abre uma janela não apenas para essa manifestação artística, ancestral e que renasce como resistência durante o franquismo, mas para toda a cultura desse povo. É uma arte austera, e exigente em seu aparente improviso.

Já Em Nome da Filha, de Tania Hermida, é uma gracinha de filme, mas não vai muito longe em sua proposta. Procura, em primeiro lugar, mostrar divergências ideológicas dos adultos pelos olhos das crianças, no que lembra um pouco A Culpa É do Fidel, de Julie Gavras. A história é a de Manuela e do seu irmãozinho Camilo, filhos de pais ateus e marxistas, que vão passar férias com os avós carolas.

A situação rende bons momentos, em especial porque o tempo histórico se localiza nos anos 70, quando os confrontos ideológicos ainda ferviam. A menina, que a avó teima em batizar na Igreja Católica, dá uma aula de sociologia marxista ao apontar a condição de explorados dos empregados da casa. E vai por aí. O encontro das crianças com um personagem misterioso, mantido às escondidas pela família, dá outro rumo à história, caminho talvez equivocado. Em Nome da Filha é um filme singelo, despojado em seu desenho visual e conta com boa atuação das crianças, o que não é fácil.

 


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