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Diário do Aruanda 2013 – Se Deus Vier que Venha Armado

Luiz Zanin Oricchio

18 de dezembro de 2013 | 22h04

JOÃO PESSOA – Com esse título – Se Deus Vier que Venha Armado – o diretor Luiz Dantas faz sua estreia em longas-metragens. Dantas é homem de mil instrumentos. Ele é professor da ECA-USP, economista, foi ator e fotógrafo profissional durante muitos anos, estudou nos Estados Unidos e fez vários documentários. Começa na ficção com o pé direito, num filme de impacto, original e bem estruturado, tendo por tema a segunda onda de ataques da organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), que produziu muitas vítimas em 2012, entre as quais mais de uma centena de policiais militares.

Um dos personagens, o protagonista, Damião (Vinicius de Oliveira, de Central do Brasil), sai do presídio no benefício do Dia das Mães para visitar seu irmão, Josué. Pode passar o fim de semana fora e deve voltar para a cadeia na segunda. Sai com uma missão, não prevista pelas autoridades, a ser cumprida para os chefões da organização criminosa. No seu período fora da cadeia, Damião se reencontrará com um amigo, Palito (Ariclenis Barroso), e conhecerá uma garota, Cléo (Sara Antunes), que mantém uma espécie de ONG na periferia e com a qual ele se envolve.

Logo se vê que a ideia do diretor é fazer um jogo de alternância entre dois planos – o pessoal e o social. No primeiro, um caso de amor, na verdade um triângulo amoroso que se estabelece tendo por vértices dois amigos de longa data. No segundo, a efervescente situação social paulistana, ameaçada por uma briga entre polícia e bandidos, na qual a população honesta é a principal vítima. Calcula-se que 116 PMs tenham perdido a vida em atentados. Com os revides da policia, não se sabe ao certo quantas pessoas morreram, entre as quais, supõe-se, muitas vítimas inocentes. A sensação de insegurança era terrível.

“Quis fazer duas linhas dramáticas que evoluem entre Eros (o amor) e Tânatos (a morte). Tudo isso conduzindo a um desfecho catártico que deve interessar ao espectador”, diz Dantas. “A situação de guerra como pulsão de morte e o impulso do amor com ela se entrelaçando”, diz.

O filme segue uma linha lacunar, e com idas e vindas no tempo: isto é, não se entrega com facilidades ao espectador. Deixa para quem o assiste a oportunidade de preencher espaços vazios da narrativa com sua própria inteligência e imaginação. Nesse roteiro sólido e intrincado há espaço para uma morte por identidade trocada, a recordação do protagonista de uma mãe que ele mal conheceu, o relacionamento problemático entre dois irmãos. Isso além do respiro lírico do envolvimento amoroso, com direito a uma trip de carro e drogas pelo litoral paulista. As cenas de praia, filmadas em Mongaguá, são muito intensas, e belas. A fotografia é assinada por Hélcio “Alemão” Nagamine. E o amor é tão terminal que, no fundo, o tal respiro não alivia tanto assim.

Nota-se no realizador a intenção de fazer um filme que seja acessível, mas que não caia no facilitário da linguagem televisiva, aquela dá tudo mastigado para um público suposto desatento. Existe, no fundo, essa ideia de retratar a caótica situação social da periferia paulistana com todo o rigor, mas dar-lhe uma saída que, como o espectador verá, pode ser pelo campo da arte. E através do personagem de quem menos isso se espera. Em meio à tragédia final, que não é adoçada e nem aliviada, há esse alento. Pequeno, porém necessário para que as pessoas continuem a viver.

Como dizia Nelson Rodrigues, sem um pouco de esperança você não consegue nem atravessar a rua para a calçada oposta.

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